Plano de Leituras para 2018

Novo ano, novo plano de leituras. Aproveitei parte do anterior, inovei em algumas coisas (inclusive suprimindo uma categoria e alargando outra para contemplar um tema sobre os qual nunca li). Novamente, não pude fazer um plano enxuto, e não vou me justificar alegando alguns títulos a menos. Se algo pode atenuar minha “gula literária”é o fato de que boa parte desses títulos são livros mais curtos, alguns até bem objetivos. Enfim, sem muito discurso. Ei-la:

1-Literatura

1) O Albatroz – José Geraldo Vieira
2) A Ladeira da Memória – José Geraldo Vieira
3) Contos Fluminenses – Machado de Assis
4) Histórias da Meia Noite – Machado de Assis
5) Poesias – Alphonsus de Guimaraens
6) Numa e Ninfa – Lima Barreto
7) Zodíaco – Da Costa e Silva
8) Os Lusíadas – Luís de Camões
9) Poesia Lírica – Luís de Camões
10) Sonetos – Bocage
11) Os Maias – Eça de Queiroz
12) O Primo Basílio – Eça de Queiroz
13) A Ilustre Casa de Ramires – Eça de Queiroz
14) Coração, Cabeça e Estômago – Camilo Castelo Branco
15) Onde Está a Felicidade? – Camilo Castelo Branco
16) Amor de Salvação – Camilo Castelo Branco
17) Rua – Miguel Torga
18) Vindima – Miguel Torga
19) Don Quijote – Miguel de Cervantes
20) La Colmena – Camilo José Cela
21) Under Western Eyes – Joseph Conrad
22) Pride and Prejudice – Jane Austen
23) I Promesi Sposi – Alessandro Manzoni
24) Gente Pobre – Fiódor Dostoiévski
25) Os Demônios – Fiódor Dostoiévski
26) Bóbok – Fiódor Dostoiévski
27) A Aldeia de Stiépantchikovo e seus Habitantes – Fiódor Dostoiévski
28) Le Noeud des Víperes – François Mauriac
29) Soumission – Michel Houellebecq

2- Estudos Literários

1) Camões – Hêrnani Cidade
2) Perché Leggere i Classici – Italo Calvino
3) The Liberal Imagination – Lionel Trilling

3- História, Memória e Jornalismo

1) Maldita Guerra – Francisco Doratiotto
2) História dos Fundadores do Império (5 vols.) – Otávio Tarquínio de Sousa
3) A Vida do Barão do Rio Branco – Luís Viana Filho
4) O Mundo que o Português Criou – Gilberto Freyre
5) História da Civilização Ibérica – Oliveira Martins
6) Portugal nos Mares – Oliveira Martins
7) Perfil do Marquês de Pombal – Camilo Castelo Branco
8) D. Afonso Henriques – José Mattoso
9) D. Sebastião – Maria Augusta Lima Cruz
10) O Enigma Português – Francisco da Cunha Leão
11) A Primeira República Portuguesa – A. H. Oliveira Marques
12) O Relato Secreto da Implantação da República – Costa Pimenta (org.)
13) 25 de Abril: Mitos de uma Revolução – Maria Inácia Rezola
14) O Equívoco do 25 de Abril – Sanches Osório
15) Breve Historia de España – Fernando G. Cortázar e J. M. González Vesga
16) Lo Que el Mundo Le Debe a España – Luis Suárez
17) Los Españoles de Stalin – Daniel Arasa
18) Lenin – Robert Service
19) Trotsky – Robert Service
20) O Fim do Homem Soviético – Svetlana Aleksiévitch
21) Da Alegria no Leste Europeu e na Europa Ocidental – Andrei Pleshu
22) El Mestiero de Vivere – Cesare Pavese
23) El Pez en el Agua – Mario Vargas Llosa
24) “Olavo de Carvalho”- Wagner Carelli
25) Um Escritor Confessa-se – Aquilino Ribeiro
26) Tempos Interessantes – Eric Hobsbawn
27) Sowing the Wind – John Keay
28) Histoire Du Moyen Orient – Bernard Lewis
29) História Ilustrada da Pprimeira Guerra Mundial – John Keegan
30) Morte de um Dissidente – Alex Goldfarb e Marina Litvinenko
31) An Autobiography – M. K. Gandhi
32) Ronald Reagan – John Patrick Diggins
33) Jack Kennedy – Barbara Leaming
34) La Révolution Française – Mgr. Freppel
35) O Brasil e as Colônias Portuguesas – Oliveira Martins
36) Portugal em África – Oliveira Martins


4- Ciências Sociais e Políticas

1) Elogio do Conservadorismo – João Camilo de Oliveira Torres
2) World Order – Henry Kissinger
3) Where The Right Went Wrong – Patrick J. Buchanan
4) The Cambridge Companion to Marx – Terrell Carver (ed.)
5) Main Currents of Marxism – Lezsek Kolakowski
6) Conversas com Jovens Diplomatas – Celso Amorim
7) Democracy: The God That Failed – Hans-Hermann Hoppe

5- Direito

1) Historia de La Filosofía Del Derecho y Del Estado (3 vols.) – Antonio Truyol y Serra
2) Filosofia do Direito – Michel Villey
3) Teoria Pura do Direito – Hans Kelsen
4) Teoria dos Direitos Fundamentais – Robert Alexy
5) Entre Hidra e Hércules – Marcelo Neves
6) A Constitucionalização Simbólica – Marcelo Neves
7) La Constitución Cristiana de los Estados – Miguel Ayuso
8) Curso de Direito Internacional Privado – Maristela Basso
9) Estatuto do Estrangeiro – Yussef Cahali


6- Economia e Negócios

1) História Econômica do Brasil – Caio Prado Júnior
2) A Startup Enxuta – Eric Ries
3) Sonho Grande – Cristiane Correia
4) Empreendedores Inteligentes – Gustavo Cerbasi
5) Clássicos do Mundo Corporativo – Max Geringher
6) A Arte da Guerra – Sun Tzu


7- Psicologia e Educação

1) Controle Cerebral e Emocional – Narciso Irala
2) Catecismo da Educação – Abbé René Bethélem
3) Suma Gramatical – Carlos Nougué

8- Religião

1) Catecismo Romano – São Pio V
2) A Bula Quo Primum Tempore – São Pio V
3) O Concílio Vaticano II – Roberto de Mattei
4) História de Cristo – Giovanni Pappini
5) Jesus de Nazaré (3 vols.) – Bento XVI
6) Introdução ao Cristianismo – Bento XVI
7) El Hombre de Villa Tevere – Pilar Urbano
8) A Vida Espiritual Segundo Santo Tomás de Aquino – Mons. Marcel Lefebvre
9) A Ilusão Liberal – Louis Veuillot
10) El Liberalismo Es Pecado – Pe. Félix Sardá y Salvany
11) As Moradas do Castelo Interior – Santa Teresa d’Ávila
12) O Papa que Conheci de Perto – Card. Merry Del Val
13) Pio IX – Roberto de Mattei
14) Pio XII – Andrea Tornielli
15) Documentos de São Pio X e Bento XV
16) Encíclicas de Pio XI
17) Documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II
18) Le Cathéchisme sur Le Modernisme – Jean-Baptiste Lemius
19) Pius V – Robin Anderson
20) Diário de uma Alma – João XXIII
21) O Que Pensam os que Venceram – Hirpinus
22) Las Puertas Del Infierno – Ricardo de La Cierva
23) Marcel Lefebvre: Une Vie – Mons. Bernard Tissier de Mallerais
24) Uma Teologia da História – Gustavo Corção
25) A Descoberta do Outro – Gustavo Corção
26) A Missa Tridentina – D. Prósper Guerranger
27) A Reforma Litúrgica de Cranmer – Michael Davies
28) O Concílio do Papa João – Michael Davies
29) A Missa do Papa Paulo – Michael Davies
30) La Inquisición Española – Henry Kamen
31) La Batalla de Lepanto – Hugh Bicheno
32) A Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino em Forma de Catecismo – R. P. Thómas Pègues

9- Filosofia

1) Curso de Filosofia – Régis Jolivet
2) Umbrales de La Filosofía – Pe. Álvaro Calderón
3) Histoire de La Philosophie (3 vols.) – Yvon Belavall et allii
4) Filosofia e Cosmovisão – Mário Ferreira dos Santos
5) Fedro – Platão
6) Metafísica – Aristóteles
7) Organon – Aristóteles
8) Ética a Nicômaco – Aristóteles
9) Anamnese – Eric Voegelin
10) A Presença Total – Louis Lavelle
11) Reler Platão – António Pedro Mesquita
12) A Arte de Filosofar – Álvaro Ribeiro
13) La Rebelión de las Masas – José Ortega y Gasset
14) Os Conimbricenses – Pinharanda Gomes
15) El Hombre, Animal Politico – Juan Antonio Widow

Livros inspecionais

1) Bíblia
2) Catecismo da Igreja Católica
3) Código de Direito Canónico
4) A Imitação de Cristo – Tomás de Kempis
5) Os Padres da Igreja – Bento XVI
6) Caminho – São Josemaría Escrivá
7) Sulco – São Josemaría Escrivá
8) Forja – São Josemaría Escrivá
9) Didaché
10) Suma Teológica –Sto. Tomás de Aquino
11) Denzinger
12) O Mínimo Que Você Precisa Saber Para Não Ser Um Idiota – Olavo de Carvalho
13) O Jardim das Aflições – Olavo de Carvalho
14) História da Filosofia – Giovanni Reale e Dario Antisieri
15) História do Pensamento Filosófico Português – Pedro Calafate
16) Dicionário de Filosofia Portuguesa – Pinharanda Gomes
17) Manual de Filosofia – Armand Cuvellier
18) Noemas de Filosofia Portuguesa – Miguel Bruno Duarte
19) Vade Mecum
20) Filosofia do Direito – Miguel Reale
21) Filosofia do Direito – Soares Martínez
22) História do Direito Português – Marcelo Caetano
23) Introdução Histórica ao Direito – John Gilissen
24) Historia Del Derecho Romano – V. Arangio-Ruiz
25) Curso de Direito Civil (7 vols.) – Paulo Nader
26) Direito Civil (7 vols.) – Silvio Rodrigues
27) Direito Constitucional – Alexandre de Moraes
28) Curso de Direito Constitucional – Paulo Bonavides
29) Instituciones de Derecho Internacional Público – Manuel Diez de Velasco
30) Direito Internacional Público – Francisco Ferreira de Almeida
31) Direito Internacional Público – Alain Pellet et alii.
32) Direito Internacional Público e Privado – Paulo Gonçalves Portela
33) Curso de Direito Processual Civil (3 vols.) – Luiz Guilherme Marinone
34) Novo Código Civil Comentado – Ricardo Fiúza (org.)
35) Código Civil Anotado – Pires de Lima e Antunes Varela
36) Constituição da República Portuguesa
37) Direito Constitucional e Teoria da Constituição – J.J. Gomes Canotilho
38) Direitos Reais – António Santos Justo
39) Direito Comercial Português – Filipe Cassiano dos Santos
40) Direito do Trabalho – Sergio Pinto Martins
41) Direito Processual do Trabalho – Sergio Pinto Martins
42) Dicionário de Sociologia – Allan Johnson
43) Dicionário de Política – J. P. Galvão de Sousa et alii.
44) História da Literatura Portuguesa – António Saraiva e Óscar Lopes
45) Antología de La Literatura Española Del S. XX – Arturo Ramoneda
46) As Flores do Mal – Charles Baudelaire
47) Mensagem – Fernando Pessoa
48) Poemas de Alberto Caeiro – Fernando Pessoa
49) Indícios de Oiro – Mário de Sá-Carneiro
50) Últimos Sonetos – Cruz e Souza
51) Poesias – Konstantinos Kafávis
52) Poetas Franceses do Século XIX – José Lino Gruneald (org.)
53) Vaga Música – Cecília Meirele
54) Poesia Completa – Gregório de Matos
55) Sangue 47 – Da Costa e Silva
56) Desafio – Pedro Lyra
57) Sonetos – William Shakespeare
58) Gramática Alemã – Herbert Andreas Welker
59) Gramática de Espanhol para Brasileiros – Esther Maria Milani
60) Nova Gramática do Português Contemporâneo – Celso Cunha e Lindley Cintra
61) Gramática Metódica da Língua Portuguesa – Napoleão Mendes de Almeida
62) Gramática Latina – Napoleão Mendes de Almeida
63) História do Brasil – Boris Fausto

Agora, ao lavor intelectual!

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Livros lidos em 2017

Hora de “prestar contas” das leituras do ano. Mas uma vez o resultado poderia ser melhor, mas está longe de ser considerado um fracasso. Surpresas gratíssimas ( nos.6, 7, 29, 31-33 e 35-37), algumas decepções ( n. 30), outros que poderiam ser melhores. Emfim, só espero que, de alguma forma, essas leituras tenham me ajudado a crescer e que em 2018 eu seja capaz de ler mais e melhor.

1) Os Sete Contra Tebas – Sófocles
2) Antígona – Sófocles
3) América Debilitada – Donald Trump
4) A Vida Intelectual – A. D. Sertillanges
5) A Conjuração Anticristã – Mons. Henri Delassus
6) Do Liberalismo à Apostasia – Mons. Marcel Lefebvre
7) Catecismo Maior de São Pio X
8) Os Bruzundangas – Lima Barreto
9) História Essencial da Filosofia (vol. 1) – Olavo de Carvalho
10) História Essencial da Filosofia (vol. 2) – Olavo de Carvalho
11) História Essencial da Filosofia (vol. 3) – Olavo de Carvalho
12) História Essencial da Filosofia (vol. 4) – Olavo de Carvalho
13) História Essencial da Filosofia (vol. 5) – Olavo de Carvalho
14) História Essencial da Filosofia (vol. 6) – Olavo de Carvalho
15) História Essencial da Filosofia (vol. 7) – Olavo de Carvalho
16) História Essencial da Filosofia (vol. 8) – Olavo de Carvalho
17) História Essencial da Filosofia (vol. 9) – Olavo de Carvalho
18) História Essencial da Filosofia (vol. 10) – Olavo de Carvalho
19) História Essencial da Filosofia (vol. 11) – Olavo de Carvalho
20) História Essencial da Filosofia (vol. 12) – Olavo de Carvalho
21) História Essencial da Filosofia (vol. 13) – Olavo de Carvalho
22) A Era dos Impérios – Eric Hobsbawn
23) Portugal, Portugueses: Uma Identidade Nacional – José Manuel Sobral
24) Pastor Aeternus – Pio IX
25) Ineffabilis Deus – Pio IX
26) Syllabus – Pio IX
27) Rerum Novarum – Leão XIII
28) Pequeno Manual do Católico – Dom Lourenço Fleichman, OSB
29) Carta Aberta aos Católicos Perplexos – Mons. Marcel Lefebvre
30) Portugal e os Portugueses – Manuel Clemente
31) A Dialética Simbólica – Olavo de Carvalho
32) Catecismo Católico da Crise da Igreja – Pe. Matthias Gaudron, FSSPX
33) Itinerário Espiritual da Igreja Católica – Julio Fleichman
34) Pare de Acreditar no Governo – Bruno Garschagen
35) A Morte de Portugal – Miguel Real
36) Contos – Eça de Queiroz
37) A Razão Animada – Álvaro Ribeiro
38) O Reno se Lança no Tibre – Ralph Wiltgen, SVD

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Nova direita e o canibalismo

Falava eu outro dia que uma das piores coisas da nova direita brasileira é o seu complexo canibalista. Alguns me perguntaram do que se tratava, ao que prometi responder com um texto mais desenvolvido. Bem, eis o que pretendo fazer aqui.

O termo que empreguei foi tomado de empréstimo do excelente ensaio de Miguel Real, intitulado A Morte de Portugal, no qual o autor, um acadêmico especializado na cultura portuguesa, aborda quatro complexos culturais pelos quais não só Portugal passa ao longo de sua história mas também o português individualmente considerado também enfrenta existencialmente. O último deles, como que se tratasse de uma descida ao abismo, chama-se complexo canibalista, no qual o país é visto como venenoso e necessitado de uma destruição regeneradora, no qual ou “outros” (leia-se: divergentes) devem ser atacados, acossados com grande rigor em nome de promessas de felicidade, ordem, paz e prosperidade (sobre os demais complexos não falarei, pois assim faria resenha do livro, resenha essa merecida, mas incabível aqui).

E eis que me deparo com mais tretas entre membros da nova direita brasileira ( que são, aliás, bastante frequentes) depois de ler Miguel Real e, para mim, é impossível não ver o paralelo. Mais uma vez brigas inúteis, suspeitas de “infiltração”, julgamentos precipitados, critérios totalmente arbitrários para definir quem é ou não conservador, liberal, direitista, patriota, o bicho que for. E, para piorar, caboclo ainda se esbatendo por preferir esse ou aquele político! Sério que tem gente que ainda poe essa fé toda em políticos? É sério que ainda tem gente, inclusive dita “esclarecida”, que ainda pensa que os problemas brasileiros são antes de tudo políticos? E que se Fulano ou Sicrano for eleito presidente da República uma era dourada se iniciará? Será que não aprenderam nada com o professor Olavo de Carvalho ou, ao menos, com a história brasileira das últimas duas décadas?

É verdade que a base das fraquezas da nova direita brasileira está justamente no fato de que ela é ainda bem nova, portanto, imatura e com tendências fortes a se precipitar. Mas se não cuidar de amadurecer o quanto antes, corre o risco de ser devorada por si mesma. Como uma tribo de canibais.

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Movie Review: “Marie Kroyer”, de Billie August

Ainda sobre a Mostra de Cinema Nórdico, digo que, o último dia começou com um filme um tanto marcante, mas que tenho certa dificuldade em reproduzir aqui, de modo que esta resenha não será muito mais do que uma pequena nota. Refiro-me ao filme dinamarquês Marie Kroyer.

Ambientado na Jutlândia do final do século XIX, o filme narra a história da vida familiar da pintora dinamarquesa Marie Kroyer e seu marido, o também pintor P. S. Kroyer, que faziam parte dos chamados “Pintores de Skagen”, pelo fato de estar estabelecida na localidade deste nome, ao norte do país. Apreciadores do contraste intenso com a luz, este estilo foi influenciado pleo naturalismo e realismo franceses e teve também como representantes Michael e Anna Ancher, dentre outros.

O casal Kroyer vivia com sua prole nesta região pacata e afastada da agitação urbana. Viviam principalmente para sua arte. Mas não viviam reclusos; ao contrário, suas obras eram muito solicitadas nos salões de arte e pela alta sociedade de Copenhague. Peder Kroyer se destacava mais e acabava por ser mais valorizado, mas o talento de sua mulher também era reconhecido. Um quadro perfeito, não?

Não. Peder Kroyer sofre de uma doença mental que o deixa cada vez mais esquisito e violento. Marie, que tem de se desdobrar em suas funções de mãe, dona de casa, esposa e artista, é quem mais sofre com a progressiva mudança do marido, suas internações e crises. Ela torna-se uma mulher cada vez mais angustiada.

Não suportando mais essa situação ela viaja em férias, a fim de recuperar algo de seu equilíbrio. Acaba por conhecer aí o compositor sueco Hugo Alfvén, que rapidamente se transforma de amigo para amante. O caso é descoberto por Peder, que quase mata o rival num surto. Depois de idas e vindas, Marie separa-se do marido, mas perde a guarda da filha para a antiga governanta, que cuidara da menina quando ela viajara. Triste, Marie deixa o lugar, em busca de uma terra que não lhe seja carregada de emoções tão fortes para seguir com a vida.

Com uma fotografia belíssima (uma das mais belas que já devo ter visto), que contrasta claramente com o pesado drama vivido pela protagonista, o filme é uma maravilha aos olhos do espectador e um deleite para quem aprecia a arte, em suas variadas linguagens.

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Movie Review: “Histórias de Estocolmo”, de Karin Fahlén

Uma história cujo principal personagem não é um homem, uma mulher ou uma criança mas sim uma cidade, uma das maiores cidades da Europa: essa frase vem à guisa de introdução de Histórias de Estocolmo, de Karin Fahlén.

O primeiro filme que vi na mostra de cinema anteriormente citada é assim: nele destaca-se não as figuras individuais e variadas que o compõe, mas a cidade de Estocolmo. A capital sueca, em dias frios e chuvosos, com sua multidão de habitantes, mostra-se nos através das vidas de pessoas como o jovem escritor Johan; a estranha publicitária de meia-idade Jessica; a jovem Anna, despejada de seu apartamento e sem ter para onde ir; Douglas, o estudante de economia que sonha em ser designer de jogos eletrônicos; dentre outros. Uma história complexa feita dos dramas, aspirações, rotinas, contratempos, tristezas e também alegrias dessas vidas que, ao longo da película se entrelaçam, mostrando do que é feita a vida na cidade.

Tomemos como um primeiro exemplo Jessica. Ela é solteira, sem filhos e candidatou-se ao programa de adoção, mas foi rejeitada por ser demasiadamente reclusa e sem um círculo social. Isso a é uma fonte de frustração para ela. Mas isso não a impede de seguir em frente e, num episódio um tanto quanto burlesco ( a disputa insistente por uma cesta de delicatessen num sorteio promovido pela escola de sua sobrinha), encontrar um homem capaz de quebrar a solidão de sua vida amorosa: Thomas ( Jonas Karlsson), o funcionário do Ministério das Finanças responsável pelo despejo de Anna.

Anna, a despejada irmã de Johan, mostra-se bem mais problemática. Sem ter para onde ir, sem um emprego realmente fixo nem relevantes laços familiares, ela encontra na rua seu antigo amigo Douglas (Filip Berg), um tímido rapaz que, apesar de acadêmico de economia, planeja dedicar-se a desenvolver jogos eletrônicos e está de olho na possibilidade de mudar-se para Xangai. Ele tem conflitos com o próprio pai, e ela, com todos. Mantém um caso homossexual com a chefe de Thomas, que é casada, e cuja casamento é ameaçado pela possível revelação exigida pela irmã de Johan.

Johan é, talvez, quem realmente poderia ser chamado de o personagem mais importante da trama. Este jovem escritor, interpretado por Martin Wallstrom, é filho de um consagrado escritor já falecido e tenta se firmar no mundo das letras. Ao contrário do pai, um erudito ao gosto da academia, Johan diz-se “meio modernista”, com propostas inovadoras. Tem um interesse quase obsessivo com o tema do blecaute, que explora exaustivamente em seu livro de poemas, publicado por uma editora pequena e que ele tenta promover todo o tempo, presenteando pessoas do meio com ele, como Gustav, um editor renomado e que se interessa por ele devido ao prestígio de seu pai. Todavia é inútil, pois Johan é considerado por ele e pelo roteirista Coletho como medíocre, sem futuro, “um péssimo escritor”. Num ato de desespero, ele deita fora do alto de um prédio um roteiro sobre um romance cujo personagem principal é sua cidade de Estocolmo e, usando da força, invade a companhia elétrica para forçar os funcionários a desligarem a eletricidade da capital sueca, fazendo com que Estocolmo fique na escuridão por alguns minutos, vivendo assim (e também fazendo viver os outros) o paradoxo da “luz x escuridão” que tanto o fascina. Ele mesmo pede o religamento da energia e que a polícia seja chamada. No caminho da delegacia acaba por cruzar com vários dos personagens da trama, todos dando novos rumos em suas existências de certo modo conturbadas. E ele sorri.

Um filme interessante e belo, mostrando o vazio que pode se apossar da vida nas grandes cidades urbanas, mas sem amargura ou negativismo. Arrisco mesmo a dizer que chega a ser terno. Histórias de Estocolmo é um filme difícil de narrar, mas que vale muito a pena assistir.

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Movie Review: “Eu Sou Sua”, de Iram Haq

No mês passado pude ir ao Festival de Cinema Nórdico do Centro Cultural Dragão do Mar, aqui em Fortaleza. Várias produções do cinema escandinavo foram exibidas em diversos horários, e gostaria de comentar sobre algumas das que pude assistir. Começarei pelo norueguês “Eu sou Sua” (Jeg Er Din), de 2013.

Dirigido por Iram Haq, o filme conta a história de Mina, uma atriz norueguesa de família paquistanesa de 27 anos, tentando firmar-se na vida. Ela tem um filho chamado Felix, de 6 anos de idade, fruto de um casamento malsucedido e já terminado. Bonita, batalhadora, Mina, vivida pela atriz nepalesa naturalizada norueguesa Amrita Acharia, tem um sério problema para manter um novo relacionamento de forma estável. O fato de ser uma mãe solteira assusta alguns homens, mas ela própria se mostra pouco madura para um namoro duradouro, embora muito o queira. E isso é fonte de desgosto para sua família, de valores islâmicos tradicionais.

Ela acaba por conhecer um cineasta chamado Jesper (Ola Rapace), e se entrega a esta nova paixão. Chega a ir a Estocolmo visitá-lo devido ao fato de ele passar uma temporada lá desenvolvendo um projeto, e cogita mudar-se para a capital sueca para viver com o namorado. No entanto ele também se mostra imaturo e não resiste às obrigações de um namoro e, principalmente, à presença de Felix. Com lágrimas nos olhos, Mina volta para Oslo numa madrugada.

Começa ela como que a descer ladeira a baixo na vida. Mina mostra-se cada vez mais desesperada por um amor, mas cada vez menos centrada, cada vez mais desorientada. Mergulha em sua lascívia (o filme tem algumas cenas de sexo e de masturbação), mas ela se mostra impotente para preencher o vazio existencial que se abre cada vez mais em sua vida. Isso irrita seus pais ao ponto de expulsá-la de casa, chamando-a de prostituta.

Apesar de amá-lo muito, com toda a sinceridade, Mina alegra-se quando Felix passa alguns dias com o pai, que já está num novo casamento e com a vida bem encaminhada. Por fim, vendo aquele lar unido e feliz, seu sofrimento a faz chorar bastante e afastar-se, no encerramento do filme.

“Eu Sou Sua”, sendo ou não a intenção do diretor, acaba por nos mostrar o terror do que é a vida sem sentido e como enchê-la de coisas menos nobres, por mais atraentes e aprazíveis que possam parecer ou mesmo ser, não é possível. Imagino o Dr. Viktor Frankl assistindo a este filme. Ele é, aliás, um prato cheio para logoterapeutas.

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Movie Review: “O Jardim das Aflições”, de Josias Teófilo

Assisti na noite de quinta-feira a sessão de estréia de O Jardim das Aflições, de Josias Teófilo, em Fortaleza e confesso que ainda estou embasbacado com o forte impacto que o filme me causou. Razões para isso não faltam.

Desde logo posso apresentar algumas razões técnicas. Creio que poucos filmes brasileiros apresentam uma fotografia tão bela e tão adequada ao tema, algo muito mais comum ao cinema europeu. Ela harmoniza-se muito bem com a trilha sonora (sinfonia n. 1 de Jan Sibelius), prendendo a atenção do expectador logo nos primeiros minutos.

O roteiro também é muito bem elaborado. Dividido em três partes, inicia como um comentário ao livro que empresta título ao filme, para depois abordar outros temas da filosofia olaviana e desembocar na terceira parte, “Como se tornar quem se é”. Entrecortando tudo isso temos cenas da vida do filósofo. de sua casa-biblioteca e a dinâmica de sua família.

Explicando o tema do poder presente nas páginas finais de O Jardim das Aflições, Olavo de Carvalho demonstra mais uma vez como a expansão de direitos no mundo moderno, longe de significar um aumento vertiginoso da liberdade, consiste no aumento extraordinário do poder estatal; uma vez que decide-se que cabe ao Estado prover diversas garantias aos seus cidadãos, este amplia a legislação e toda a estrutura necessária à realização dos tais direitos. E seguem-se considerações sobre a vida americana, o Brasil, a cultura, a vida, etc.

Não há como não se impressionar com a titânica biblioteca do filósofo, que ocupa boa parte de sua casa. Livros e mais livros sobre os mais diversos assuntos, com autores das mais diferentes posições; um desavisado certamente se surpreenderá ao saber que ele, referência da direita brasileira, possui as obras completas de Lenin, Stalin, Trótstki e outros autores comunistas, todos bem lidos e estudados. Mas, afinal de contas, não deve ser assim a biblioteca do autêntico estudioso, do verdadeiro intelectual? Aberta a todas as correntes possíveis não em nome de algum relativismo debilitante, mas simplesmente porque sabe que o que deve ser estudado deve ser estudado independentemente dos próprios posicionamentos pessoais.

Muito me chamou a atenção a parte na qual Olavo declara que a razão de seu ingresso na vida intelectual ter-se dado não por um mero gosto por literatura, filosofia ou alguma outra disciplina, mas por ele querer entender o sofrimento humano de forma mais completa possível. Aqueles que acompanham o filósofo com atenção a anos vão perceber a ponta autobiográfica aqui. Também comovem as cenas familiares, nas quais o homem tido por alguns como um feroz guerreiro revela-se um pai amoroso, um avô dedicado e um marido apaixonado.

Mas, qual é, emfim, a grande sacada do filme? Política? Polêmicas? Nada disso. É a Filosofia. Que é nele apresentada menos como uma exposição de conceitos e doutrina (o que acabaria por transformar a película numa grande aula) do que na própria personalidade do filósofo, na vida de Olavo de Carvalho. E é essa a característica que faz com que seja, de certo modo, tão difícil falar desse filme, por mais que ele impacte o espectador, em oitenta minutos que se passam como se meia hora fossem. Talvez, por ora, para possibilitar uma conclusão, seja o caso da lição já ensinada pelo mestre da Virgínia: a maior força que existe é a personalidade. A personalidade trabalhada no fogo de uma vida intensa e no longo e duro estudo de um gigante como Olavo de Carvalho. Quem não saiu da sessão querendo conhecê-lo de perto, estudar mais e amadurecer, não aproveitou o que podia do filme.

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