Movie Review: “Luz de Inverno”, de Ingmar Bergman

O que é do homem quando Deus parece calar-Se perante suas angústias e temores, sejam eles reais ou apenas potenciais? Mais ainda: quando este homem desempenha um ofício religioso, o que fazer? Como viver assim? Essas questões são exploradas naquele que é um dos principais filmes de Ingmar Bergman, Luz de Inverno (Nattvardsgästerna, 1963).

Segundo filme da chamada “Trilogia do Silêncio de Deus” (o primeiro é Através do Espelho e o último, O Silêncio) e considerado pelo diretor sueco como sua produção favorita, Luz de Inverno traz-nos a história e os dilemas do pastor Tomas Ericsson (Gunnar Björnstrand), responsável por uma pequena igreja luterana no interior da Suécia. Oficiando um culto já freqüentado por poucas pessoas, a maioria próxima da velhice, Tomas sente sua fé em Deus enfraquecer-se diante de um abismo existencial. Ao fim de um de seus cultos, já na sacristia, recebe a visita do casal Jonas e Karin Persson (Max Von Sydow e Gunnel Lindblom). Karin pede-lhe que acalme e aconselhe Jonas, que tem estado demasiadamente inquieto desde que soube que a China estava desenvolvendo uma bomba atômica. Tomas tenta mudar-lhe a direção dos pensamentos mais quase nada consegue, pois já tem sua fé e sua psique fragilizadas por questionamentos internos, de modo que, mal conseguindo manter sua própria firmeza, não serve adequadamente de apoio àquele homem angustiado.

Ericsson também tem de lidar com o assédio de Märta Lundberg (Ingrid Thulin), uma atéia que, apesar disto, assiste aos cultos presididos pelo pastor por amor a ele e pela esperança de vir a tornar-se sua mulher. Ela o participa de tudo em sua vida, mesmo de seu estado de saúde, e tenta tirar o pastor de seu sofrimento evidente usando mão de seus encantos femininos, mas foi em vão. Nada parece preencher o buraco que se abriu na alma de Ericsson, que o faz sofrer incessantemente.

Winterlightcriterion

Sendo um filme de temática bastante introspectiva, quase todo ele é ambientado no interior da igreja de Ericsson. Por isso, mais marcante do que fatos são os pensamentos e estados psicológicos e espirituais dos personagens, retratados em diálogos, monólogos e closes típicos de Bergman. O vazio espiritual em que cai o pastor talvez não seja melhor representado do que na cena na qual ele fixa-se numa tosca imagem de Cristo crucificado e carregado pelo Pai e diz, baixo porém firme: “Que imagem monstruosa!”. Mais tensa ainda se torna a película quando, ao acompanhar Märtha à escola na qual leciona, o pastor Ericsson a repele firmemente, de maneira áspera até, e recorda sua falecida esposa e como sua vida e fé ficaram abaladas com o falecimento desta. O cume da dramaticidade da obra é, ao menos à minha pouco qualificada visão, quando chega a notícia do suicídio de Jonas Persson, por um disparo. Trata-se do fim trágico de um homem desesperado que não encontrou qualquer consolo na terra nem naquele que seria um homem de Deus, por este mesmo estar tão espiritualmente abalado que se tornou completamente incapaz de ajudá-lo. A alma existencialista deste filme aí encontra seu momento mais rubro, mais explícito. Pergunto-me qual seria a reação de Albert Camus ao assistir Luz de Inverno.

Análises rasas são completamente incapazes de perceber essas referências profundas do filme, focando-se em estereótipos totalmente deslocados, do tipo “a fé não deveria ser algo espontâneo?”, “é preciso se desprender de dogmas” e outras psicodelias. Ter crises de fé é algo normal num homem, mesmo em sacerdotes. Ericsson passava por uma mas não se mostra forte o suficiente para vencê-la, talvez por falta de uma formação adequada ou, o que me parece muito mais provável, dado o enredo e as bases filosóficas das quais Bergman parte, por falta de uma visão genuinamente cristã do sofrimento e de sua situação concreta. O pastor não enxergou sua vida sub specie aeternitatis, com confiança firme e abandono de si mesmo na Providência Divina. A vida dos santos tem lições valiosíssimas a este respeito, que teriam resgatado a alma de nosso personagem das angústias nas quais andava mergulhada. Ao invés disso, ele mecanicamente continua seu ofício, e assim encerra-se esta obra.

Luz de Inverno é, sem dúvidas, um filme essencial. Ainda merece muitas reflexões que serão muito frutíferas a quem o assista, bem como estude e medite as questões nele expostas.

Fábio V. Barreto

Publicado em Cinema | Deixe um comentário

Movie Review: “Vergonha”, de Ingmar Bergman

Embora ainda falte assistir a muitos de seus filmes, considero Ingmar Bergman como um dos meus dois cineastas favoritos, disputando o posto acirradamente com Akira Kurosawa. Criei interesse nele quando começei a assitir seus filmes há uns anos. Iniciei por “Morangos Silvestres”, passei depois pelo soberbo “O Sétimo Selo” , vindo outros depois. O impacto dos dois primeiros filmes foi tão forte que os revejo praticamente todos os anos e como que me desperta receios sobre se os demais filmes estão à altura dessas produções. Como decidi fazer uma profunda incursão no cinema de Bergman neste ano (e também no de Kurosawa, o que talvez deixe a “disputa” irresolvida por mais alguns anos), deparei-me com sua “Vergonha” (Skammen, 1968).

O filme e protagonizado pelo casal Jan e Eva Rosemberg (Max von Sydow e Liv Ullmann), que se retiraram para uma modesta vida no campo para tentar escapar da guerra civil que assola seu país (não se especifica qual país seria esse, o que indica que Bergman não tinha aí qualquer intenção de fazer um filme histórico ou político, apesar da ambientação no norte da Europa). A dureza de tempos bélicos e os conflitos conjugais são uma constante na vida do casal, mas eles tem conseguido manter-se relativamente à salvo da crise.

Skammen (1968) Filmografinr 1968/18

Entretanto o conflito acaba por alcançar a localidade na qual vivem. Seus vizinhos apresam-se em fugir. Preparam-se e empreendem fuga, mas logo são alcançados pelo grupo rebelde. É a partir desse momento que suas vidas são tragadas por um vórtice inexorável com seríssimas consequências psicológicas, morais e sociais. O grupo rebelde os força a gravar um vídeo que depois é adulterado, mostrando os apolíticos Rosenberg apoiando os revoltosos. Isso gera diversos problemas entre o casal e as tropas governamentais. Prestam dolorosos esclarecimentos ao Exército mas ali conseguem a proteção do coronel Jacobi (interpretado por outro dos atores favoritos do diretor, Gunnar Björnstrand), que aproveita-se para obter “favores” de Eva em troca de dinheiro (o subentendido disto é tão forte que não deixa dúvidas). Raiva e ódio por parte de Jan; a guerra dá uma reviravolta e com ela o caráter de Jan, que aproveita uma oportunidade dada a ele para eliminar Jacobi. Fuga do casal. Jan tem o dinheiro do coronel escondido, para imenso desagrado de Eva, por toda a tortura que sofreu por causa daquele dinheiro por ela amaldiçoado. Encontram um jovem soldado ferido. Enquanto em Eva afloram as características da caridade e quiçá algum instinto materno por parte daquele desconhecido combatente, seu marido rouba-lhe a arma, bens e o mata. Empreendem fuga e, com o dinheiro, compram as passagens para um barco que os levará para longe da ilha na qual viviam.

É nesse vórtice que fica a rubro todo o peso daquela situação, de como ela transformou o pacato, sensível e sentimental Jan num homem sádico, cruel, inescrupuloso e calculista, o homem que a princípio não conseguia matar uma galinha para preparar suas refeições domésticas mata homens por vingança e busca de pequenos ganhos materiais numa desesperada luta pela sobrevivência; de como transformou a forte, resistente, irascível e pragmática Eva numa mulher de ar cansado, melancólica, triste, que sonha acordada. Um misto de sentimentos emergem com força com o desenrolar da trama, como a raiva, a ansiedade, o stress, o ódio a si mesmo e a vergonha. Vergonha de ser torturado, de ser acusado falsamente de crimes que não cometeu ou de defender causas as quais não se defende; de sofrer exploração sexual em troca de uma relativa proteção; de se rebaixar a uma condição animalesca, anticivilizada, no esforço hercúleo de sobreviver a uma situação tão adversa a à qual não se escolheu nem se tem qualquer participação nele. A imagem de melancolia e de vazio existencial nas últimas cenas do filme são especialmente tocantes: o olhar duro do transtornado e transformado Jan, o suspiro melancólico de Eva, relatando, numa voz débil e pausada um sonhe que tivera com uma filha que tanto quera ter, dizendo “eu sabia que havia algo que eu tinha de lembrar. Alguma coisa que um de nós disse, mas da qual eu me esqueci. Eu comecei a chorar, que eu me lembre”. Uma sensação de fracasso e impotência perante a barbárie, só muito atenuada por uma possível embora vaga esperança numa terra distante.

É mais um filme fantástico de um diretor genial. Sem dúvidas, uma obra prima. Vale cada minuto e merece ser assistido com toda a atenção.

Publicado em Cinema | Marcado com | Deixe um comentário

As Ordenações Afonsinas

ordenaçõesafonsinas

Durante o reinado de D. João I, queixavam-se as Cortes do caos legislativo vigente em Portugal, uma vez que à altura não havia no país uma legislação ordenada e harmônica, vigorando costumes, leis romanas, castellanas e portuguesas, não raro conflitantes entre si. Diante desta situação, o monarca incumbiu o corregedor da Corte, João Mendes, de embabeçar a reforma necessária do ordenamento jurídico português. Devido a uma série de intercorrências, porém, a empreitada só foi concluída no reinado de D. Afonso, entre os anos de 1446 e 1447. Daí o novo diploma legal chamar-se Ordenações Afonsinas.

Dado o facto de ser demorado e oneroso tirar cópias das Ordenações, estas primeiro foram obtidas por concelhos mais ricos e só muito lentamente foram-se difundindo pelo país.

Interessante tratar da sistemática das Ordenações Afonsinas. Consistem elas em cinco livros, divididos em títulos e estes, por vezes, em parágrafos.

O Livro I possui 72 títulos e trata dos regimentos dos cargos públicos municipais e régios. O Livro II (123 títulos) aborda matéria concernente à Igreja e à situação dos clérigos, direitos do monarca, em geral, e administração fiscal, jurisdição dos donatários, privilégios da nobreza, e legislação especial em relação a mouros e judeus. O Livro III aborda o processo civil em seus 128 títulos. Os 112 títulos do Livro IV tratam do direito civil. Por fim, o Livro V, com 121 títulos, trata de direito e processo penal.

Tratam-se as Ordenações Afonsinas de uma compilação sistematizada e atualizada das varias fontes de direito existentes no país.

Via de regra, a técnica legislativa utilizada foi a transcrição integral da fonte ou fontes existentes dentro de cada título, seguida por um comentário. Entretanto, no Livro I seguiu-se o estilo legislativo ou decretório, enunciando-se diretamente a norma vigente, provavelmente pela possível autoria de João Mendes quanto a este Livro, ao passo que os demais foram elaborados posteriormente por Rui Fernandes. Outra teoria sugere que essa diferença dá-se pelo fato de a matéria constante no Livro Iera nova no direito português e as demais, não.

As Ordenações Afonsinas constituem-se num dos pontos mais decisivos do desenvolvimento do Direito português, uma vez que as grandes ordenações posteriores –Manuelinas e Filipinas, esta última vigente até o advento do Código Civil do Marquês de Seabra, de 1867 – conservam o plano sistemático das Ordenações Afonsinas e nelas baseiam mesmo o seu conteúdo.

Publicado em Direito, História | Marcado com , | Deixe um comentário

Auto-entrevista 4

homemvitruviano

Já lá vão dois anos desde a última vez que fiz uma auto-entrevista. Tento em vista o meu atual estado de espírito, que prioriza o autoconhecimento, a autorreforma como superação das próprias fraquezas espirituais, psicológicas e intelectuais, e a busca do verdadeiro senso do real, retorno ao exercício da auto-entrevista, desta vez focada nestas metas.

1) O que mudou no Fábio de 2014 para o de 2016?

R- Leituras, vivências e reflexões fizeram-me reexaminar algumas posturas e pontos de vista. Percebi que minha vida andava num ritmo muito abixo do que eu desejava e que tudo acontecia de forma demasiado lenta e difícil. Entendi tammbém que boa parte disso era devida a atitudes minhas, tanto mentais como práticas. Como mudar os outros ou as conjunturas impessoais são extremamente difíceis, quando não impossíveis, resolvi que preciso, antes de tudo mudar a mim mesmo. Entendi que tenho várias fragilidades nos campos espiritual, intelectual e psicológico. Venho diagnosticando cada uma delas e predefinindo os meios de as combater de maneira eficaz. Nisso muito me ajudaram a psicologia, textos e cursos do Olavo de Carvalho e a crescente convivência com católicos devotos, que estão me ajudando a me recolocar nos caminhos do Senhor depois de um período de aridez espiritual.

2) Isso se nota nas suas participações nas redes sociais e nos blogs que você possui…

R- Sim, é verdade. Estou cada vez mais longe de “tretas” (mas não do humor), militâncias políticas (só em casos realmente graves) e conversas frívolas. Nada disso me interessa mais. Aliás, essas coisas se me apresentam cada vez mais não só como fúteis mas sim perniciosas ao crescimento e desenvolvimento pessoais, algo a que uma pessoa bem ambicionada não deve se dedicar jamais.
Quanto aos blogs: agora tenho três, cada qual com algo como uma linha editorial. O Bios Theoretikos continua a ser o meu blog favorito, o “principal”, por assim dizer. Nele quero esmerar-me no trabalho intelectual que deve aperfeiçoar-se e tomar a forma de conferências, artigos e livros nos próximos tempos. Ele recebe o que considero os meus melhores textos e nele focarei escritos jurídicos, filosóficos e religiosos, além de resenhas literárias e cinematográficas. Isso tem predominado nos últimos tempos devido a esta minha decisão. O Casa de Autores é o irmão menor dele. Existe para coligir textos e fragmentos de autores que reputo de grande valor. Nele nada há de minha produção. O Medium, por sua vez, nasceu antes do Casa, mas sempre o vi como um misto de blog e rede social, daí ter ele certa “bastardia”. Servia antes apenas para divulgar textos do Bios, mas agora, além disso, vai abrigar crônicas minhas, publicadas semanalmente às quintas-feiras. Espero manter a periodicidade dele e ser bastante ativo nos demais. E sempre publicar conteúdo de altíssima qualidade.

3) E a vida intelectual? No que mudou?

R- Está cada vez mais organizada e focada no meu aprimoramento. Nisso devo agradecer não só as orientações do Olavo de Carvalho como também ao Rafael Falcón, que numa palestra proferida em Fortaleza mostrou de maneira brilhante que a alta cultura tem sim que transformar aquele que a busca numa pessoa melhor: mais corajosa, centrada, generosa, madura, forte, prudente, etc. Do contrário temos a mera erudição, infelizmente confundida por muitos como a encarnação própria da vida intelectual. Por mera erudição refiro-me ao conhecimento culto fechado em si mesmo, que não opera significativas transformações pessoais. É o caso daquele que é capaz de ler Aristóteles em grego antigo, Hegel em alemão, fazer um doutorado, mas incapaz de ser sincero seja consigo mesmo, seja com os demais. Incapaz de um ato de bravura, de nobreza, de generosidade. Fraco na compaixão, tíbio, de caráter aburguesado. Prometi a mim mesmo que usaria de todas as minhas forças para não ser assim, que me empenharia ao máximo para repelir esses venenos de minha alma e da minha mente e, aquilo que eu não pudesse fazer por minhas forças e nem pela ajuda de pessoas com os mesmos objetivos, eu pediria a Deus que me ajudasse a fazer. Estou realmente empenhado nisto.

4) Você mudou suas posições intelectuais?

R- Pouco, muito pouco, se a pergunta se refere a preferências literárias ou definições políticas. O que mudei foi o foco e a organização. Na verdade, eu estou basicamente instituindo uma organização na minha vida de estudos. Não os estudos de tipo escolar, direcionados para estudar tais matérias para ser aprovado num exame. Mas a de saber o que realmente quero e devo estudar. O mapa da ignorância recomendado por Olavo de Carvalho se me afigura como vital e indispensável nesse processo. Eu o estou fazendo para atender a esta necessidade, e pretendo segui-lo à risca, a menos que minha personalidade mude ao ponto de que aquele rumo não faça mais o menor sentido.
Também pretendo organizar melhor meus planos anuais de leituras, fazendo com que sejam mais sensatos, exequíveis e fortemente ligados às minhas necessidades intelectuais e profissionais.
Também estou mergulhando em cursos online e por conta própria, para aprender o que quero saber, mas não descarto os tradicionais cursos presenciais.

5) A que “mudanças psicológicas” você se refere?

R- Com a ajuda da Terapia Cognitivo-Comportamental identifiquei vários erros antigos que cometia com frequência e limitações que turbavam o meu desenvolvimento. Aprendi como vencê-las e em larga medida tenho obtido sucesso. Muito me tem ajudado também os ensinamentos de Olavo de Carvalho sobre a dificuldade dos brasileiros com a vida e a falta de centralidade da psique, além de sua interessantíssima teoria das doze camadas da personalidade.

6) E quanto ao lado espiritual?

R- Passei por um considerável período de certo distanciamento em relação à religião. Não abandonei tudo, continuei a fazer minhas orações diárias e mesmo alguma leitura espiritual. Mas nada com a intensidade e a paixão com que fazia antes. Segui os conselhos que meu diretor espiritual me deu há tempos, quando eu o via com mais frequência, de perseverar e ter paciência. Apesar dos pesares, fez a diferença necessária. O crescente envolvimento com a Associação Cultural São Thomas More tem me ajudado em resgatar e fortalecer a fé além de, é claro, a ação da misericórdia divina, pois sem ela nada é possível.

7) Quando deve terminar sua autorreforma? Como espera estar quando essa hora chegar?

R- Espero ser um homem mais maduro, senhor de si mesmo, de fé fortalecida, intelectualmente sério, capaz de suportar grandes adversidades, de servir ao próximo e com forte senso da realidade e da eficiência. Quando será isso? Não sei, nunca se sabe quando uma reforma vai acabar (risos). Por mim seria para amanhã, mas já aprendi que é imprescindível unir paciência e perseverança. Pode ainda levar alguns anos, mas irei até o fim.

Publicado em Avisos, Cultura | Marcado com | Deixe um comentário

Book Review: “Apologia e Filosofia”, de Álvaro Ribeiro

Tenho dado atenção, nos últimos tempos, à filosofia concebida em Portugal. Por contingências de minhas leituras e também por certa inclinação impulsiva, acabei por não seguir, como de praxe, o método histórico-cronológico, estudando autores e escolas desde as origens até à atualidade. Acabei por me deter, ao menos por ora, no Movimento da Filosofia Portuguesa, especialmente na obre de Álvaro Ribeiro. Com essa disposição, li seu livro Apologia e Filosofia.

Considerado por alguns como o maior filósofo português do século XX, Álvaro Ribeiro publicou Apologia e Filosofia em 1953. O livro é, em grande medida, uma apologia da filosofia, do pensamento filosófico frente às correntes intelectuais antifilosóficas que faziam sucesso no Portugal de então, como o positivismo. Porém, mais do que isto, ele expressa ao longo deste volume uma das características típicas dos membros do Movimento Filosofia Portuguesa: distinguir o que se pode dizer como um pensamento filosófico especificamente português em relação as formas estrangeiras, especialmente a germânica, de fazer filosofia. O livro já começa comentando a importância absolutamente vital do aristotelismo para a filosofia lusa:

O pensamento filosófico português foi, durante séculos, referido a Aristóteles cujas obras, mediata imediatamente conhecidas, motivaram entre nós algumas interpretações escolásticas que lograram fama nas universidades estrangeiras. Não está ainda suficientemente esclarecida a história do aristotelismo na Europa Ocidental, porque nas traduções latinas e árabes, e nos comentários dos escolastas cristãos e islâmicos, nem sempre se pode discernir o que verdadeiramente corresponde ao pensamento do Estagirita. Muito menos conhecida é a história do aristotelismo português, porque faltam ainda os elementos para apreciar em que medida, e em que direção, se libertaram da letra para o espírito os nossos comentadores escolásticos.

Apologia e Filosofia-1

Não demora o filósofo portuense em fazer apologia da filosofia portuguesa frente ao mainstream filosófico lusitano:

Alheia às vicissitudes da cultura universitária, onde se deforma quando se reflecte, tem sido quase sempre inspirada por um espírito subtil e desconhecido a filosofia portuguesa. Descrever as características dessa filosofia e, depois de descrevê-las, defini-las, para que os conceitos e as teses se prestes às operações lógicas, é aventura por entre enganos e desenganos de quem terá de suportar a adversidade da crítica e esperar a ingratidão dos publicistas. Sabido, porém, que antes da aventura e da experiência não é possível desenhar o método, teremos de passar o risco das fabulações, conjeturas e hipóteses, se quisermos estabelecer disciplina rigorosa e exata.

Em relação à filosofia portuguesa, Álvaro Ribeiro mostra-se consciente de que o positivismo não constitui-se como sua única ameaça. O existencialismo também recebe dele reservas e críticas:

A doutrina positiva é a doutrina do porto seguro, enquanto a doutrina existencial é a doutrina do naufrágio, da ‘navis fracta’. Entre esses extremos domina a virtude que corresponde à vocação dos Portugueses, a virtude do Infante de Sagres. A filosofia portuguesa, outrora referida a Aristóteles, ao actualizar-se no período em que está ameaçada pelo existencialismo, não necessita mais do que recorrer a Bergson para deixar de se apavorar perante o ídolo do ‘nada’, e de recorrer a Hegel para verificar como se supera a dúvida entre o ser e o não-ser.

Em se tratando de Álvaro Ribeiro, é natural a presença de páginas e mais páginas sobre educação, especialmente de jovens, uma vez que nosso filósofo era não só muito preocupado com as questões educacionais mas também um verdadeiro pedagogista, como gostava de dizer. Vários capítulos da obra tratam dos problemas do formato então vigente na escola portuguesa, das características da grade curricular, bem como de sugestões para o seu melhoramento. Ele dedicou um volume mais pormenorizado sobre o tema, Escola Formal, de 1958, tido por alguns como umas das principais obras do Movimento da Filosofia Portuguesa.

Tendo atacado diretamente o materialismo positivista, Ribeiro demonstra o caráter metafísico e religioso do pensamento português, e como ele é parte inseparável da alma lusa naquele que é, talvez, um dos parágrafos mais belos de todo o livro:

A admirável doutrina de que Deus está em toda parte, permite-nos conceber a filosofia como via, vida e viagem pelo qual o pensador se aventura para corresponder a uma vocação superior, e habilita-nos a desenhar no plano da cultura o ideal artístico de educação da humanidade. O problema crucial está e decidir se o homem cumpre inteiramente o seu destino antes da morte e na sociedade, ou se, para além do mundo sentido e para além do mundo sensível, lhe será dado intuir a significação mais veraz da existência terrestre e mundana. A solução deste problema condiciona a especulação filosófica sobre as actividades sociais, especialmente sobre as actividades de cultura.

As mais de duzentas páginas que compõe a obra, porém, ao contrário do que poderia parecer, não tratam de assuntos unicamente portugueses. Embora o autor tenha sempre uma preocupação decidida pelos problemas de sua pátria, as reflexões de Álvaro Ribeiro atingem graus de universalidade que podem e devem inspirar homens de outros países e culturas para tratar de problemas idênticos ou semelhantes que certamente encontrarão em suas próprias terras e culturas. Aqueles que, no Brasil, tem ânsia por restauração cultural devem dar-lhe ouvidos. Oxalá este livro ganhe logo sua primeira edição brasileira.

Fábio V. Barreto

Publicado em Book Review, Filosofia | Marcado com , | Deixe um comentário

Movie Review: “Ran”, de Akira Kurosawa

ran1

Descobri o cinema de Akira Kurosawa em 2010, meio que por acaso, ao escolher Trono Manchado de Sangue numa locadora de filmes (ainda hoje pego filmes lá, para espanto dos mais jovens) para filme do fim de semana. Se antes só conhecia o diretor por ouvir falar de sua fama, descobri ali um artista fantástico, merecedor de muita estima e atenção.

Logo vieram outros filmes do mesmo cineasta, como Sonhos e Os Sete Samurais. Não demorou muito e assisti Ran, considerada por muitos o último épico do diretor. O filme, de 1985, consiste numa adaptação da peça Rei Lear de Shakespeare para a realidade do Japão feudal, recurso usado por Kurosawa em Trono Manchado de Sangue, no caso, adaptando Macabeth.

Ran (“caos” em japonês) traz-nos a história do clã dos Ichimonjins, chefiado por Hidetora. Ao fim de uma caçada, ele, já bastante idoso, reúne seus três filhos e decide repartir seus domínios entre eles: o mais velho Taro (interpretado pelo ator Akira Terao), Jiro ( vivido por Jinpachi Nezu) e Saburo (Daisuke Ryu). Hidetora ensina-os a permanecerem undos, pois assim se conservarão fortes, tais como as flechas reunidas em feixes são mais fortes do que cada uma delas em específico. Hidetora planeja levar uma velhice tranquila a partir de então.

Kuroran

Por determinação de Hidetora, Taro passa a ser o chefe de seus irmãos, por deter o mando do feudo e da cavalaria, enquanto que os demais teriam bens menores. O caçula Saburo, porém, opõe-se à decisão paterna, alegando que, no fundo, a ganância entre os irmãos iria destruir o domínio criado pelo pai, pois os mesmos não teriam firmeza e solidariedade suficientes entre si para resistirem à tentação por mais poder. Tem lugar ali uma amarga discussão familiar que culmina com a expulsão de Saburo de sua família. Ele passa a ser malquisto pelos demais e os irmãos se apressam em maldizê-lo.

Hidetora cumpre sua partilha. Entretanto, o velho senhor de guerra logo percebe que seus últimos dias não vão transcorrer em paz, pois, de fato, as ambições de Taro e Jiro são muito maiores do que ele suspeitava e que os mesmos não tinham qualquer intenção de manter suas promessas de união. Isso fica muito claro quando ele é mal recebido na casa de Taro (cuja esposa maquina para que seu marido domine o clã Ichimonji e vingue sua família assassinada por Hidetora antes do casamento daquela com Taro). Vai a Jiro e percebe que ele quer usar o pai como instrumento para sobrepujar o irmão primogênito.

Desamparado por seus filhos, ele quer mandar incendiar as aldeias a eles pertencentes quando toma ciência do decreto de Taro: quem quer que ajude o velho Hidetora será condenado à morte. Aturdido, o velho senhor da guerra não vê outra solução senão recorrer ao filho mais novo, e renegado, Saburo. Ruma para o Terceiro Castelo, que seria de Saburo e que está vazio devido ao exílio deste e de seus homens.

Mas, nesse meio tempo, o que aconteceu a ele? Após ser expulso do clã, juntamente com Tango, Saburo é acolhido pelo nobre Nobuhiro Fujimaki, que também lhe concede a filha em casamento. Tendo superado a desgraça em ser deserdado e exilado, Saburo participa da guerra que já desemboca pelo controle do reino.

Desnecessário e mesmo prejudicial seria descrever ponto por ponto o desenrolar da trama, que tiraria de vez as surpresas do leitor ao assistir o filme. Porém é digno de nota comentar aqui a beleza e a magnificência das batalhas, tão bem orquestradas e coreografadas quanto violentas, por paradoxal que isso seja. O trabalho harmônico da fotografia impecável com o áudio das batalhas e a movimentação dos exércitos compõem um quadro dificilmente repetível num filme épico. Igualmente incrível é ver a descida progressiva de Hidetora da sanidade á loucura ao contemplar o caos criado pela guerra movida por seus filhos, o que até nos poderia levar a sentir certa compaixão do já decadente senhor de guerra, mas esse sentimento esmaece diante do fato de que ele construiu seu poderio através da pilhagem e da matança, inclusive de pessoas inocentes. Kurosawa talvez tenha intentado nos dizer em Ran que nem tudo é preto-e-branco mas sim matizado.

Nota para o papel de da Senhora Kaede, aquela que almeja vingança contra Hidetora e seu clã. É uma loba perversa mas, ao mesmo tempo, com certa dubiedade em suas ações, ironicamente, tal como seu tão odiado sogro. Ela faz esse papel com uma naturalidade ímpar.

Tudo isso só foi possível pela junção de dois artistas genuínos: Shakespeare e Akira Kurosawa. Para aqueles interessados pelo Japão e sua história, pelas artes marciais, pelos melindres do coração humano, pela criação shakespeareana ou por autênticas obras de arte, Ran é um filme simplesmente indispensável.

Fábio V. Barreto

Publicado em Cinema | Marcado com | Deixe um comentário

De la cultura y sus artífices

Mário Ferreira dos Santos

Mário Ferreira dos Santos

Gilberto Freyre

Gilberto Freyre

Calma, leitor. Não vou aqui fazer uma resenha do famoso livro de Ortega y Gasset, mas sim sobre a nova “polêmica” nacional: a “extinção” do Ministério da Cultura. Vale a pena fazer sobre isso algumas reflexões, uma vez que tantos falaram e falam a respeito, seja para saudar o ocorrido, seja para lamentá-lo.

Em primeiro lugar, o MinC não será propriamente extinto. Tornar-se-á uma secretaria, uma divisão interna do Ministério da Educação, ao qual pertencia até ser constituído como ministério próprio, no governo Lula. Portanto, cuidado ao celebrar ou lamentar a mudança.

Em segundo lugar, o Minc não é a Lei Rouanet e acabar com um não é acabar com o outro. A referida lei segue em vigor, podendo dela desfrutar todos os profissionais da cultura, ou aqueles ao menos assim considerados.

Em terceiro, o governo federal, como que recuando e fazendo concessões em seu projeto de enxugar a máquina pública, já declarou que vai manter o apoio à cultura e mesmo de que vai aumentá-lo. Mais um motivo de cautela aí.

No entanto, quero focar-me em aspectos que considero mais substantivos do assunto: há a necessidade de um Ministério da Cultura? Para que fins tem ele realmente servido? A cultura brasileira pode passar sem ele?

Não vou aqui discorrer sobre o conceito de cultura porque outros já o fizeram com uma maestria muito maior do que a que eu posso aqui e agora fazer. Atenho-me às questões que acima formulei. E no que respeita à necessidade de um Ministério da Cultura, sei do patrocínio do mesmo a diversos projetos culturais pelo país, seja na música, no teatro, no cinema, no mercado editorial, etc. Tornou-se um ministério de certo peso, ao qual os profissionais da cultura não se furtam de recorrer em busca de patrocínio.

Agora pergunto aos que defendem a permanência do órgão federal: se ele é vital para a cultura brasileira, como foi possível que o país tenha desenvolvido sua cultura ( e mesmo em alto nível) sem precisar de ministério? Se sem o MinC não há cultura nacional, como explicam Mário Ferreira dos Santos, Gilberto Freyre, Machado de Assis, Villa-Lobos, Lima Barreto, Capistrano de Abreu, etc? Como explicam, por exemplo, as modernas campanhas de crowdfunding para a publicação de livros e gravação de discos, nas quais os próprios leitores e ouvintes financiam as produções culturais? Não estaria nisso certo o filósofo marxista francês Jean-Paul Sartre certo ao dizer que “a cultura não precisa de ministro”?

Também me pergunto, e passo a pergunta aos leitores, se anos e anos de intervenção estatal no âmbito cultural produziram um filósofo digno de nota, um compositor valioso, um romancista de primeira linha ou um dramaturgo genial. Honestamente, desconheço. Que eu saiba, todos os que estão por esse nível só subiram a tais alturas por outros meios.

Ângelo Monteiro

Ângelo Monteiro

Mas se não serve para fomentar a inteligência e a beleza, para quê serve, concretamente, o Ministério da Cultura? Para isso, ao contrário da questão anterior, eu já tenho a resposta pronta: serve para promover as estrelas da indústria do entretenimento, cativar o meio cultural por parte do governo e promover campanhas político-sociais. Exatamente isso: no Brasil confunde-se cultura com entretenimento de uma maneira tão profunda que as manifestações culturais mais nobres são muitas vezes vistas como esnobismo. E a escala de valores resta prejudicada. Dizer, por exemplo, que culturalmente Chico Buarque é muito inferior ao Mário Ferreira dos Santos ou que a alta cultura no país está combalida soa estranho aos ouvidos de muitos. Para o senso comum nacional, Chico Buarque, Caetano Veloso ou nossos acadêmicos engajados são a própria expressão da mais alta cultura no país. É aí que vemos o quanto da vaca está no brejo.

Machado de Assis

Machado de Assis

Some-se a isto o fato de que um dos instrumentos mais utilizados pelo MinC, a Lei Rouanet, teoricamente voltada para o auxílio de criadores iniciantes sem recursos materiais próprios significativos, na prática favorece os profissionais mais bem pagos do mercado. Na música muito já se beneficiaram dela Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Ivete Sangalo, Luan Santana, Roberto Carlos, dentre outros artistas que poderiam muito bem passar sem financiamentos públicos, baseados apenas em seus nomes consagrados. Faltam, no entanto, recursos para os iniciantes, bem como para obras culturais menos focadas no entretenimento, mas sim no saber considerado em suas formas mais nobres. É como se o MinC nos dissesse: funk é preciso, Farias Brito não é preciso.

chico-buarque-11-12-11_652x4081

Pelo exposto, me parece que a terceira pergunta já está respondida. A cultura brasileira pode sim prescindir de um ministério. Mesmo reconhecendo que certas expressões culturais demandam recursos mais vastos (como o teatro e o cinema, por exemplo), pode-se sempre recorrer à iniciativa privada. Nas demais, o que é essencial é conhecimento, ousadia e criatividade. E isso verba pública nenhuma pode produzir.

Fábio V. Barreto

Publicado em Cultura | Deixe um comentário