Projetos de livros jurídicos

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1) Um estudo sobre a Filosofia do Direito luso-brasileira
2) Um estudo sobre a Filosofia do Direito católica, do passado ao presente
3) Uma “História do Direito Brasileiro”
4) Algo como uma “História Constitucional do Direito Brasileiro”ou “História do Constitucionalismo Brasileiro”(vide exemplo do Prof. Paulo Ferreira da Cunha)
5) Uma análise crítica e global da Constituição de 1988
6) Um estudo sobre a Justiça do Trabalho
7) Uma possível “filosofia do direito internacional”
8) Um manual de Direito Internacional Público
9) Um estudo como “Direito Internacional Público para Diplomatas”
10) Um estudo como “Direito Internacional Público para Estadistas”
11) Um estudo sobre direitos religiosos, direitos humanos e Direito Internacional Público
12) Uma coletânea de ensaios sobre direito público
13) Uma coletânea de ensaios sobre direito privado
14) Uma possível Filosofia do Direito

Fábio V. Barreto

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Do negócio jurídico

O negócio jurídico representa uma prerrogativa que o direito confere ao indivíduo capaz de, por sua própria vontade, criar relações juridicamente válidas, adequadas à ordem social.
A finalidade da lei ao estabelecer isto é garantir que os efeitos jurídicos sejam efetivamente gerados. Estamos aqui diante do chamado princípio da autonomia da vontade, segundo o qual nas relações privadas, observando certos requisitos legais, as vontades das partes geram relações jurídicas a serem respeitadas.

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O Código Civil brasileiro menciona os pressupostos de validade do negócio jurídico em seu art. 104, a saber: a) a capacidade do agente; b) o objeto lícito; c) a forma prescrita em lei.
Dentre os elementos essenciais destaca-se, em primeiro lugar, a vontade humana, já que o negócio jurídico é fundamente um ato de vontade. No caso, uma vontade necessariamente declarada.
O segundo elemento essencial refere-se ao fato de o objeto ser necessariamente lícito, em relação ao negócio visado. Assim só será idôneo para o negócio de hipoteca o bem imóvel, o navio, o avião. Os demais, não.
Por fim temos o elemento forma. Sem ele o negócio ganha sequer existência.
Já me referi aos quesitos de validade do negócio jurídico, mas cabe aqui um maior aprofundamento:
a)Capacidade das partes: sendo as pessoas incapazes, por definição, destituídas da capacidade para cuidar de seus próprios interesses na seara jurídica o ato jurídico, como ato que exige a vontade clara de pessoas maduras e capazes para tratar de seus direitos, acaba por ser para estas pessoas deveras limitado. No caso dos absolutamente incapazes a lei despreza a sua vontade e exige que sejam representados nos atos jurídicos de que participem. Já para os relativamente incapazes, requer que se manifestem assistidos por seus representantes. Tal restrição à atuação dos incapazes não provém de uma grosseira intrusividade estatal na vontade dos contratantes, mas sim da intenção de protegê-los, tanto que o CC, em seu art. 105, não defere à outra parte o direito de invocar a incapacidade do contratante em proveito próprio.
b) Liceidade do objeto: trata-se de vedar atos atentatórios à lei, à moral e aos bons costumes. O ordenamento jurídico só dá eficácia à vontade humana se e enquanto ela busca objetivos que não colidam com o interesse social. É o caso dos negócios juridicamente impossíveis.
c) A forma: é requisito de validade dos atos jurídicos obedecerem à forma prescrita, ou não adotarem a forma legalmente vedada.
Em muitos casos, porém, a lei prescreve uma forma especial. É o caso de compra e venda de imóveis de valor superior ao legalmente fixado (CC, art. 107); os pactos antenupciais, que só admitem como forma válida a escritura pública. O penhor e o seguro dependem pelo menos de um documento escrito para a sua validade, mesmo que seja particular. Outros negócios, porém, não dependem de qualquer formalidade.
O requisito formal legalmente exigido tem diversos propósitos: maior garantia de lisura do ato, maior fidelidade de prova, a seriedade do ato em si, que reclama maior senso de responsabilidade por parte dos envolvidos.
Os negócios jurídicos admitem classificação em diversas categorias. Assim temos:
*Negócios unilaterais: são os atos nos quais basta a declaração de vontade de uma das partes para que o negócio jurídico se aperfeiçoe;
*Negócios bilaterais: são aqueles que necessitam da manifestação de vontade de ambas as partes, para que o negócio se complete;
*Negócios onerosos: negócios jurídicos nos quais a vantagem auferida tem como contraprestação um ônus normalmente monetário. Todo negócio oneroso é bilateral;
*Negócios solenes: são os que, para se aperfeiçoar, além de outros requisitos, exigem a obediência a uma forma legalmente prescrita. São também chamados de negócios formais;
*Negócios não solenes: ou não formais. São os negócios independentes de qualquer forma preestabelecida, podendo as partes valer-se de qualquer uma delas (ex.: compra e venda de bens móveis);
*Negócios causa mortis: são os atos que devem produzir efeitos após o falecimento do seu autor (ex.: testamento);
*Negócios inter vivos: estes são a quase totalidade dos negócios jurídicos. São aqueles cujos efeitos se devem produzir enquanto vivem as partes interessadas (ex.: mandato, reconhecimento de paternidade, etc).

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Nótulas de Direito Civil (I)

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I
O direito civil é, talvez, aquele que melhor exibe as características sociológicas de um povo, já que estas resplandecem melhor nas diversas formas de relações pessoais do que na organização jurídico-pública, sempre muito sujeita às ações políticas. Por isso o direito civil deve ser estudado não só em sua jurisdicidade, mas também sociologicamente.

II
Sendo o campo por excelência do direito privado, o direito civil é bem mais estável do que os diversos ramos do direito público, inclusive em relação ao direito constitucional, no caso brasileiro. Isto, todavia, não significa que ele não enfrente ou necessite de reformas. Se me fosse consultado sobre possíveis reformas ao Código Civil, eu sugeriria, entre outras, uma melhor codificação do direito internacional privado, tal como faz o Código Civil português.

III
Já que falei no direito civil português: não entendo porque as universidades brasileiras insistem em ensinar Obrigações e Contratos como cadeiras separadas. Isso torna as obrigações uma matéria demasiado abstrata. Mais sábios são os lusos que, ensinando ambas instituições juntas, tornam-nas mais concretas e realizáveis.

IV
Sem a defesa e a regulamentação da propriedade, pode haver efetivamente uma defesa da mesma? Pode haver vida econômica sustentável? Pode existir estabilidade social? Autores de tendência libertária e anarcocapitalista costumam criticar tais regulamentações como invasivas ao direito de propriedade, mas a verdade é que o mesmo só é protegido quando sob regulamentos. É verdade que a legislação pode trazer problemas, mas não é nada que requeira a sua destruição, mas sim sua reforma.

V
Quer entender a vida econômica de uma sociedade? Vá além da política monetária, dos bancos e dos impostos: estude seus direitos reais.

VI
Que interessante fenômeno nos direitos reais de matriz romanística! Distinguem claramente entre posse e propriedade e descrevem minunciosamente os tipos de propriedades existentes, Que inteligência, que organicidade!

VII
Não me lembro de quem disse que ninguém pode ser um bom jurista se não for um bom civilista. Cada vez me convenço de que isso é verdade.

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Movie Review: “Luz de Inverno”, de Ingmar Bergman

O que é do homem quando Deus parece calar-Se perante suas angústias e temores, sejam eles reais ou apenas potenciais? Mais ainda: quando este homem desempenha um ofício religioso, o que fazer? Como viver assim? Essas questões são exploradas naquele que é um dos principais filmes de Ingmar Bergman, Luz de Inverno (Nattvardsgästerna, 1963).

Segundo filme da chamada “Trilogia do Silêncio de Deus” (o primeiro é Através do Espelho e o último, O Silêncio) e considerado pelo diretor sueco como sua produção favorita, Luz de Inverno traz-nos a história e os dilemas do pastor Tomas Ericsson (Gunnar Björnstrand), responsável por uma pequena igreja luterana no interior da Suécia. Oficiando um culto já freqüentado por poucas pessoas, a maioria próxima da velhice, Tomas sente sua fé em Deus enfraquecer-se diante de um abismo existencial. Ao fim de um de seus cultos, já na sacristia, recebe a visita do casal Jonas e Karin Persson (Max Von Sydow e Gunnel Lindblom). Karin pede-lhe que acalme e aconselhe Jonas, que tem estado demasiadamente inquieto desde que soube que a China estava desenvolvendo uma bomba atômica. Tomas tenta mudar-lhe a direção dos pensamentos mais quase nada consegue, pois já tem sua fé e sua psique fragilizadas por questionamentos internos, de modo que, mal conseguindo manter sua própria firmeza, não serve adequadamente de apoio àquele homem angustiado.

Ericsson também tem de lidar com o assédio de Märta Lundberg (Ingrid Thulin), uma atéia que, apesar disto, assiste aos cultos presididos pelo pastor por amor a ele e pela esperança de vir a tornar-se sua mulher. Ela o participa de tudo em sua vida, mesmo de seu estado de saúde, e tenta tirar o pastor de seu sofrimento evidente usando mão de seus encantos femininos, mas foi em vão. Nada parece preencher o buraco que se abriu na alma de Ericsson, que o faz sofrer incessantemente.

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Sendo um filme de temática bastante introspectiva, quase todo ele é ambientado no interior da igreja de Ericsson. Por isso, mais marcante do que fatos são os pensamentos e estados psicológicos e espirituais dos personagens, retratados em diálogos, monólogos e closes típicos de Bergman. O vazio espiritual em que cai o pastor talvez não seja melhor representado do que na cena na qual ele fixa-se numa tosca imagem de Cristo crucificado e carregado pelo Pai e diz, baixo porém firme: “Que imagem monstruosa!”. Mais tensa ainda se torna a película quando, ao acompanhar Märtha à escola na qual leciona, o pastor Ericsson a repele firmemente, de maneira áspera até, e recorda sua falecida esposa e como sua vida e fé ficaram abaladas com o falecimento desta. O cume da dramaticidade da obra é, ao menos à minha pouco qualificada visão, quando chega a notícia do suicídio de Jonas Persson, por um disparo. Trata-se do fim trágico de um homem desesperado que não encontrou qualquer consolo na terra nem naquele que seria um homem de Deus, por este mesmo estar tão espiritualmente abalado que se tornou completamente incapaz de ajudá-lo. A alma existencialista deste filme aí encontra seu momento mais rubro, mais explícito. Pergunto-me qual seria a reação de Albert Camus ao assistir Luz de Inverno.

Análises rasas são completamente incapazes de perceber essas referências profundas do filme, focando-se em estereótipos totalmente deslocados, do tipo “a fé não deveria ser algo espontâneo?”, “é preciso se desprender de dogmas” e outras psicodelias. Ter crises de fé é algo normal num homem, mesmo em sacerdotes. Ericsson passava por uma mas não se mostra forte o suficiente para vencê-la, talvez por falta de uma formação adequada ou, o que me parece muito mais provável, dado o enredo e as bases filosóficas das quais Bergman parte, por falta de uma visão genuinamente cristã do sofrimento e de sua situação concreta. O pastor não enxergou sua vida sub specie aeternitatis, com confiança firme e abandono de si mesmo na Providência Divina. A vida dos santos tem lições valiosíssimas a este respeito, que teriam resgatado a alma de nosso personagem das angústias nas quais andava mergulhada. Ao invés disso, ele mecanicamente continua seu ofício, e assim encerra-se esta obra.

Luz de Inverno é, sem dúvidas, um filme essencial. Ainda merece muitas reflexões que serão muito frutíferas a quem o assista, bem como estude e medite as questões nele expostas.

Fábio V. Barreto

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Movie Review: “Vergonha”, de Ingmar Bergman

Embora ainda falte assistir a muitos de seus filmes, considero Ingmar Bergman como um dos meus dois cineastas favoritos, disputando o posto acirradamente com Akira Kurosawa. Criei interesse nele quando começei a assitir seus filmes há uns anos. Iniciei por “Morangos Silvestres”, passei depois pelo soberbo “O Sétimo Selo” , vindo outros depois. O impacto dos dois primeiros filmes foi tão forte que os revejo praticamente todos os anos e como que me desperta receios sobre se os demais filmes estão à altura dessas produções. Como decidi fazer uma profunda incursão no cinema de Bergman neste ano (e também no de Kurosawa, o que talvez deixe a “disputa” irresolvida por mais alguns anos), deparei-me com sua “Vergonha” (Skammen, 1968).

O filme e protagonizado pelo casal Jan e Eva Rosemberg (Max von Sydow e Liv Ullmann), que se retiraram para uma modesta vida no campo para tentar escapar da guerra civil que assola seu país (não se especifica qual país seria esse, o que indica que Bergman não tinha aí qualquer intenção de fazer um filme histórico ou político, apesar da ambientação no norte da Europa). A dureza de tempos bélicos e os conflitos conjugais são uma constante na vida do casal, mas eles tem conseguido manter-se relativamente à salvo da crise.

Skammen (1968) Filmografinr 1968/18

Entretanto o conflito acaba por alcançar a localidade na qual vivem. Seus vizinhos apresam-se em fugir. Preparam-se e empreendem fuga, mas logo são alcançados pelo grupo rebelde. É a partir desse momento que suas vidas são tragadas por um vórtice inexorável com seríssimas consequências psicológicas, morais e sociais. O grupo rebelde os força a gravar um vídeo que depois é adulterado, mostrando os apolíticos Rosenberg apoiando os revoltosos. Isso gera diversos problemas entre o casal e as tropas governamentais. Prestam dolorosos esclarecimentos ao Exército mas ali conseguem a proteção do coronel Jacobi (interpretado por outro dos atores favoritos do diretor, Gunnar Björnstrand), que aproveita-se para obter “favores” de Eva em troca de dinheiro (o subentendido disto é tão forte que não deixa dúvidas). Raiva e ódio por parte de Jan; a guerra dá uma reviravolta e com ela o caráter de Jan, que aproveita uma oportunidade dada a ele para eliminar Jacobi. Fuga do casal. Jan tem o dinheiro do coronel escondido, para imenso desagrado de Eva, por toda a tortura que sofreu por causa daquele dinheiro por ela amaldiçoado. Encontram um jovem soldado ferido. Enquanto em Eva afloram as características da caridade e quiçá algum instinto materno por parte daquele desconhecido combatente, seu marido rouba-lhe a arma, bens e o mata. Empreendem fuga e, com o dinheiro, compram as passagens para um barco que os levará para longe da ilha na qual viviam.

É nesse vórtice que fica a rubro todo o peso daquela situação, de como ela transformou o pacato, sensível e sentimental Jan num homem sádico, cruel, inescrupuloso e calculista, o homem que a princípio não conseguia matar uma galinha para preparar suas refeições domésticas mata homens por vingança e busca de pequenos ganhos materiais numa desesperada luta pela sobrevivência; de como transformou a forte, resistente, irascível e pragmática Eva numa mulher de ar cansado, melancólica, triste, que sonha acordada. Um misto de sentimentos emergem com força com o desenrolar da trama, como a raiva, a ansiedade, o stress, o ódio a si mesmo e a vergonha. Vergonha de ser torturado, de ser acusado falsamente de crimes que não cometeu ou de defender causas as quais não se defende; de sofrer exploração sexual em troca de uma relativa proteção; de se rebaixar a uma condição animalesca, anticivilizada, no esforço hercúleo de sobreviver a uma situação tão adversa a à qual não se escolheu nem se tem qualquer participação nele. A imagem de melancolia e de vazio existencial nas últimas cenas do filme são especialmente tocantes: o olhar duro do transtornado e transformado Jan, o suspiro melancólico de Eva, relatando, numa voz débil e pausada um sonhe que tivera com uma filha que tanto quera ter, dizendo “eu sabia que havia algo que eu tinha de lembrar. Alguma coisa que um de nós disse, mas da qual eu me esqueci. Eu comecei a chorar, que eu me lembre”. Uma sensação de fracasso e impotência perante a barbárie, só muito atenuada por uma possível embora vaga esperança numa terra distante.

É mais um filme fantástico de um diretor genial. Sem dúvidas, uma obra prima. Vale cada minuto e merece ser assistido com toda a atenção.

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As Ordenações Afonsinas

ordenaçõesafonsinas

Durante o reinado de D. João I, queixavam-se as Cortes do caos legislativo vigente em Portugal, uma vez que à altura não havia no país uma legislação ordenada e harmônica, vigorando costumes, leis romanas, castellanas e portuguesas, não raro conflitantes entre si. Diante desta situação, o monarca incumbiu o corregedor da Corte, João Mendes, de embabeçar a reforma necessária do ordenamento jurídico português. Devido a uma série de intercorrências, porém, a empreitada só foi concluída no reinado de D. Afonso, entre os anos de 1446 e 1447. Daí o novo diploma legal chamar-se Ordenações Afonsinas.

Dado o facto de ser demorado e oneroso tirar cópias das Ordenações, estas primeiro foram obtidas por concelhos mais ricos e só muito lentamente foram-se difundindo pelo país.

Interessante tratar da sistemática das Ordenações Afonsinas. Consistem elas em cinco livros, divididos em títulos e estes, por vezes, em parágrafos.

O Livro I possui 72 títulos e trata dos regimentos dos cargos públicos municipais e régios. O Livro II (123 títulos) aborda matéria concernente à Igreja e à situação dos clérigos, direitos do monarca, em geral, e administração fiscal, jurisdição dos donatários, privilégios da nobreza, e legislação especial em relação a mouros e judeus. O Livro III aborda o processo civil em seus 128 títulos. Os 112 títulos do Livro IV tratam do direito civil. Por fim, o Livro V, com 121 títulos, trata de direito e processo penal.

Tratam-se as Ordenações Afonsinas de uma compilação sistematizada e atualizada das varias fontes de direito existentes no país.

Via de regra, a técnica legislativa utilizada foi a transcrição integral da fonte ou fontes existentes dentro de cada título, seguida por um comentário. Entretanto, no Livro I seguiu-se o estilo legislativo ou decretório, enunciando-se diretamente a norma vigente, provavelmente pela possível autoria de João Mendes quanto a este Livro, ao passo que os demais foram elaborados posteriormente por Rui Fernandes. Outra teoria sugere que essa diferença dá-se pelo fato de a matéria constante no Livro Iera nova no direito português e as demais, não.

As Ordenações Afonsinas constituem-se num dos pontos mais decisivos do desenvolvimento do Direito português, uma vez que as grandes ordenações posteriores –Manuelinas e Filipinas, esta última vigente até o advento do Código Civil do Marquês de Seabra, de 1867 – conservam o plano sistemático das Ordenações Afonsinas e nelas baseiam mesmo o seu conteúdo.

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Auto-entrevista 4

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Já lá vão dois anos desde a última vez que fiz uma auto-entrevista. Tento em vista o meu atual estado de espírito, que prioriza o autoconhecimento, a autorreforma como superação das próprias fraquezas espirituais, psicológicas e intelectuais, e a busca do verdadeiro senso do real, retorno ao exercício da auto-entrevista, desta vez focada nestas metas.

1) O que mudou no Fábio de 2014 para o de 2016?

R- Leituras, vivências e reflexões fizeram-me reexaminar algumas posturas e pontos de vista. Percebi que minha vida andava num ritmo muito abixo do que eu desejava e que tudo acontecia de forma demasiado lenta e difícil. Entendi tammbém que boa parte disso era devida a atitudes minhas, tanto mentais como práticas. Como mudar os outros ou as conjunturas impessoais são extremamente difíceis, quando não impossíveis, resolvi que preciso, antes de tudo mudar a mim mesmo. Entendi que tenho várias fragilidades nos campos espiritual, intelectual e psicológico. Venho diagnosticando cada uma delas e predefinindo os meios de as combater de maneira eficaz. Nisso muito me ajudaram a psicologia, textos e cursos do Olavo de Carvalho e a crescente convivência com católicos devotos, que estão me ajudando a me recolocar nos caminhos do Senhor depois de um período de aridez espiritual.

2) Isso se nota nas suas participações nas redes sociais e nos blogs que você possui…

R- Sim, é verdade. Estou cada vez mais longe de “tretas” (mas não do humor), militâncias políticas (só em casos realmente graves) e conversas frívolas. Nada disso me interessa mais. Aliás, essas coisas se me apresentam cada vez mais não só como fúteis mas sim perniciosas ao crescimento e desenvolvimento pessoais, algo a que uma pessoa bem ambicionada não deve se dedicar jamais.
Quanto aos blogs: agora tenho três, cada qual com algo como uma linha editorial. O Bios Theoretikos continua a ser o meu blog favorito, o “principal”, por assim dizer. Nele quero esmerar-me no trabalho intelectual que deve aperfeiçoar-se e tomar a forma de conferências, artigos e livros nos próximos tempos. Ele recebe o que considero os meus melhores textos e nele focarei escritos jurídicos, filosóficos e religiosos, além de resenhas literárias e cinematográficas. Isso tem predominado nos últimos tempos devido a esta minha decisão. O Casa de Autores é o irmão menor dele. Existe para coligir textos e fragmentos de autores que reputo de grande valor. Nele nada há de minha produção. O Medium, por sua vez, nasceu antes do Casa, mas sempre o vi como um misto de blog e rede social, daí ter ele certa “bastardia”. Servia antes apenas para divulgar textos do Bios, mas agora, além disso, vai abrigar crônicas minhas, publicadas semanalmente às quintas-feiras. Espero manter a periodicidade dele e ser bastante ativo nos demais. E sempre publicar conteúdo de altíssima qualidade.

3) E a vida intelectual? No que mudou?

R- Está cada vez mais organizada e focada no meu aprimoramento. Nisso devo agradecer não só as orientações do Olavo de Carvalho como também ao Rafael Falcón, que numa palestra proferida em Fortaleza mostrou de maneira brilhante que a alta cultura tem sim que transformar aquele que a busca numa pessoa melhor: mais corajosa, centrada, generosa, madura, forte, prudente, etc. Do contrário temos a mera erudição, infelizmente confundida por muitos como a encarnação própria da vida intelectual. Por mera erudição refiro-me ao conhecimento culto fechado em si mesmo, que não opera significativas transformações pessoais. É o caso daquele que é capaz de ler Aristóteles em grego antigo, Hegel em alemão, fazer um doutorado, mas incapaz de ser sincero seja consigo mesmo, seja com os demais. Incapaz de um ato de bravura, de nobreza, de generosidade. Fraco na compaixão, tíbio, de caráter aburguesado. Prometi a mim mesmo que usaria de todas as minhas forças para não ser assim, que me empenharia ao máximo para repelir esses venenos de minha alma e da minha mente e, aquilo que eu não pudesse fazer por minhas forças e nem pela ajuda de pessoas com os mesmos objetivos, eu pediria a Deus que me ajudasse a fazer. Estou realmente empenhado nisto.

4) Você mudou suas posições intelectuais?

R- Pouco, muito pouco, se a pergunta se refere a preferências literárias ou definições políticas. O que mudei foi o foco e a organização. Na verdade, eu estou basicamente instituindo uma organização na minha vida de estudos. Não os estudos de tipo escolar, direcionados para estudar tais matérias para ser aprovado num exame. Mas a de saber o que realmente quero e devo estudar. O mapa da ignorância recomendado por Olavo de Carvalho se me afigura como vital e indispensável nesse processo. Eu o estou fazendo para atender a esta necessidade, e pretendo segui-lo à risca, a menos que minha personalidade mude ao ponto de que aquele rumo não faça mais o menor sentido.
Também pretendo organizar melhor meus planos anuais de leituras, fazendo com que sejam mais sensatos, exequíveis e fortemente ligados às minhas necessidades intelectuais e profissionais.
Também estou mergulhando em cursos online e por conta própria, para aprender o que quero saber, mas não descarto os tradicionais cursos presenciais.

5) A que “mudanças psicológicas” você se refere?

R- Com a ajuda da Terapia Cognitivo-Comportamental identifiquei vários erros antigos que cometia com frequência e limitações que turbavam o meu desenvolvimento. Aprendi como vencê-las e em larga medida tenho obtido sucesso. Muito me tem ajudado também os ensinamentos de Olavo de Carvalho sobre a dificuldade dos brasileiros com a vida e a falta de centralidade da psique, além de sua interessantíssima teoria das doze camadas da personalidade.

6) E quanto ao lado espiritual?

R- Passei por um considerável período de certo distanciamento em relação à religião. Não abandonei tudo, continuei a fazer minhas orações diárias e mesmo alguma leitura espiritual. Mas nada com a intensidade e a paixão com que fazia antes. Segui os conselhos que meu diretor espiritual me deu há tempos, quando eu o via com mais frequência, de perseverar e ter paciência. Apesar dos pesares, fez a diferença necessária. O crescente envolvimento com a Associação Cultural São Thomas More tem me ajudado em resgatar e fortalecer a fé além de, é claro, a ação da misericórdia divina, pois sem ela nada é possível.

7) Quando deve terminar sua autorreforma? Como espera estar quando essa hora chegar?

R- Espero ser um homem mais maduro, senhor de si mesmo, de fé fortalecida, intelectualmente sério, capaz de suportar grandes adversidades, de servir ao próximo e com forte senso da realidade e da eficiência. Quando será isso? Não sei, nunca se sabe quando uma reforma vai acabar (risos). Por mim seria para amanhã, mas já aprendi que é imprescindível unir paciência e perseverança. Pode ainda levar alguns anos, mas irei até o fim.

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