Nova direita e o canibalismo

Falava eu outro dia que uma das piores coisas da nova direita brasileira é o seu complexo canibalista. Alguns me perguntaram do que se tratava, ao que prometi responder com um texto mais desenvolvido. Bem, eis o que pretendo fazer aqui.

O termo que empreguei foi tomado de empréstimo do excelente ensaio de Miguel Real, intitulado A Morte de Portugal, no qual o autor, um acadêmico especializado na cultura portuguesa, aborda quatro complexos culturais pelos quais não só Portugal passa ao longo de sua história mas também o português individualmente considerado também enfrenta existencialmente. O último deles, como que se tratasse de uma descida ao abismo, chama-se complexo canibalista, no qual o país é visto como venenoso e necessitado de uma destruição regeneradora, no qual ou “outros” (leia-se: divergentes) devem ser atacados, acossados com grande rigor em nome de promessas de felicidade, ordem, paz e prosperidade (sobre os demais complexos não falarei, pois assim faria resenha do livro, resenha essa merecida, mas incabível aqui).

E eis que me deparo com mais tretas entre membros da nova direita brasileira ( que são, aliás, bastante frequentes) depois de ler Miguel Real e, para mim, é impossível não ver o paralelo. Mais uma vez brigas inúteis, suspeitas de “infiltração”, julgamentos precipitados, critérios totalmente arbitrários para definir quem é ou não conservador, liberal, direitista, patriota, o bicho que for. E, para piorar, caboclo ainda se esbatendo por preferir esse ou aquele político! Sério que tem gente que ainda poe essa fé toda em políticos? É sério que ainda tem gente, inclusive dita “esclarecida”, que ainda pensa que os problemas brasileiros são antes de tudo políticos? E que se Fulano ou Sicrano for eleito presidente da República uma era dourada se iniciará? Será que não aprenderam nada com o professor Olavo de Carvalho ou, ao menos, com a história brasileira das últimas duas décadas?

É verdade que a base das fraquezas da nova direita brasileira está justamente no fato de que ela é ainda bem nova, portanto, imatura e com tendências fortes a se precipitar. Mas se não cuidar de amadurecer o quanto antes, corre o risco de ser devorada por si mesma. Como uma tribo de canibais.

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Sobre Fábio V. Barreto

Católico, aprendiz de escritor, ávido por conhecimento, e outras coisas mais.
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