Movie Review: “O Jardim das Aflições”, de Josias Teófilo

Assisti na noite de quinta-feira a sessão de estréia de O Jardim das Aflições, de Josias Teófilo, em Fortaleza e confesso que ainda estou embasbacado com o forte impacto que o filme me causou. Razões para isso não faltam.

Desde logo posso apresentar algumas razões técnicas. Creio que poucos filmes brasileiros apresentam uma fotografia tão bela e tão adequada ao tema, algo muito mais comum ao cinema europeu. Ela harmoniza-se muito bem com a trilha sonora (sinfonia n. 1 de Jan Sibelius), prendendo a atenção do expectador logo nos primeiros minutos.

O roteiro também é muito bem elaborado. Dividido em três partes, inicia como um comentário ao livro que empresta título ao filme, para depois abordar outros temas da filosofia olaviana e desembocar na terceira parte, “Como se tornar quem se é”. Entrecortando tudo isso temos cenas da vida do filósofo. de sua casa-biblioteca e a dinâmica de sua família.

Explicando o tema do poder presente nas páginas finais de O Jardim das Aflições, Olavo de Carvalho demonstra mais uma vez como a expansão de direitos no mundo moderno, longe de significar um aumento vertiginoso da liberdade, consiste no aumento extraordinário do poder estatal; uma vez que decide-se que cabe ao Estado prover diversas garantias aos seus cidadãos, este amplia a legislação e toda a estrutura necessária à realização dos tais direitos. E seguem-se considerações sobre a vida americana, o Brasil, a cultura, a vida, etc.

Não há como não se impressionar com a titânica biblioteca do filósofo, que ocupa boa parte de sua casa. Livros e mais livros sobre os mais diversos assuntos, com autores das mais diferentes posições; um desavisado certamente se surpreenderá ao saber que ele, referência da direita brasileira, possui as obras completas de Lenin, Stalin, Trótstki e outros autores comunistas, todos bem lidos e estudados. Mas, afinal de contas, não deve ser assim a biblioteca do autêntico estudioso, do verdadeiro intelectual? Aberta a todas as correntes possíveis não em nome de algum relativismo debilitante, mas simplesmente porque sabe que o que deve ser estudado deve ser estudado independentemente dos próprios posicionamentos pessoais.

Muito me chamou a atenção a parte na qual Olavo declara que a razão de seu ingresso na vida intelectual ter-se dado não por um mero gosto por literatura, filosofia ou alguma outra disciplina, mas por ele querer entender o sofrimento humano de forma mais completa possível. Aqueles que acompanham o filósofo com atenção a anos vão perceber a ponta autobiográfica aqui. Também comovem as cenas familiares, nas quais o homem tido por alguns como um feroz guerreiro revela-se um pai amoroso, um avô dedicado e um marido apaixonado.

Mas, qual é, emfim, a grande sacada do filme? Política? Polêmicas? Nada disso. É a Filosofia. Que é nele apresentada menos como uma exposição de conceitos e doutrina (o que acabaria por transformar a película numa grande aula) do que na própria personalidade do filósofo, na vida de Olavo de Carvalho. E é essa a característica que faz com que seja, de certo modo, tão difícil falar desse filme, por mais que ele impacte o espectador, em oitenta minutos que se passam como se meia hora fossem. Talvez, por ora, para possibilitar uma conclusão, seja o caso da lição já ensinada pelo mestre da Virgínia: a maior força que existe é a personalidade. A personalidade trabalhada no fogo de uma vida intensa e no longo e duro estudo de um gigante como Olavo de Carvalho. Quem não saiu da sessão querendo conhecê-lo de perto, estudar mais e amadurecer, não aproveitou o que podia do filme.

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Sobre Fábio V. Barreto

Católico, aprendiz de escritor, ávido por conhecimento, e outras coisas mais.
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