Movie Review: “Vergonha”, de Ingmar Bergman

Embora ainda falte assistir a muitos de seus filmes, considero Ingmar Bergman como um dos meus dois cineastas favoritos, disputando o posto acirradamente com Akira Kurosawa. Criei interesse nele quando começei a assitir seus filmes há uns anos. Iniciei por “Morangos Silvestres”, passei depois pelo soberbo “O Sétimo Selo” , vindo outros depois. O impacto dos dois primeiros filmes foi tão forte que os revejo praticamente todos os anos e como que me desperta receios sobre se os demais filmes estão à altura dessas produções. Como decidi fazer uma profunda incursão no cinema de Bergman neste ano (e também no de Kurosawa, o que talvez deixe a “disputa” irresolvida por mais alguns anos), deparei-me com sua “Vergonha” (Skammen, 1968).

O filme e protagonizado pelo casal Jan e Eva Rosemberg (Max von Sydow e Liv Ullmann), que se retiraram para uma modesta vida no campo para tentar escapar da guerra civil que assola seu país (não se especifica qual país seria esse, o que indica que Bergman não tinha aí qualquer intenção de fazer um filme histórico ou político, apesar da ambientação no norte da Europa). A dureza de tempos bélicos e os conflitos conjugais são uma constante na vida do casal, mas eles tem conseguido manter-se relativamente à salvo da crise.

Skammen (1968) Filmografinr 1968/18

Entretanto o conflito acaba por alcançar a localidade na qual vivem. Seus vizinhos apresam-se em fugir. Preparam-se e empreendem fuga, mas logo são alcançados pelo grupo rebelde. É a partir desse momento que suas vidas são tragadas por um vórtice inexorável com seríssimas consequências psicológicas, morais e sociais. O grupo rebelde os força a gravar um vídeo que depois é adulterado, mostrando os apolíticos Rosenberg apoiando os revoltosos. Isso gera diversos problemas entre o casal e as tropas governamentais. Prestam dolorosos esclarecimentos ao Exército mas ali conseguem a proteção do coronel Jacobi (interpretado por outro dos atores favoritos do diretor, Gunnar Björnstrand), que aproveita-se para obter “favores” de Eva em troca de dinheiro (o subentendido disto é tão forte que não deixa dúvidas). Raiva e ódio por parte de Jan; a guerra dá uma reviravolta e com ela o caráter de Jan, que aproveita uma oportunidade dada a ele para eliminar Jacobi. Fuga do casal. Jan tem o dinheiro do coronel escondido, para imenso desagrado de Eva, por toda a tortura que sofreu por causa daquele dinheiro por ela amaldiçoado. Encontram um jovem soldado ferido. Enquanto em Eva afloram as características da caridade e quiçá algum instinto materno por parte daquele desconhecido combatente, seu marido rouba-lhe a arma, bens e o mata. Empreendem fuga e, com o dinheiro, compram as passagens para um barco que os levará para longe da ilha na qual viviam.

É nesse vórtice que fica a rubro todo o peso daquela situação, de como ela transformou o pacato, sensível e sentimental Jan num homem sádico, cruel, inescrupuloso e calculista, o homem que a princípio não conseguia matar uma galinha para preparar suas refeições domésticas mata homens por vingança e busca de pequenos ganhos materiais numa desesperada luta pela sobrevivência; de como transformou a forte, resistente, irascível e pragmática Eva numa mulher de ar cansado, melancólica, triste, que sonha acordada. Um misto de sentimentos emergem com força com o desenrolar da trama, como a raiva, a ansiedade, o stress, o ódio a si mesmo e a vergonha. Vergonha de ser torturado, de ser acusado falsamente de crimes que não cometeu ou de defender causas as quais não se defende; de sofrer exploração sexual em troca de uma relativa proteção; de se rebaixar a uma condição animalesca, anticivilizada, no esforço hercúleo de sobreviver a uma situação tão adversa a à qual não se escolheu nem se tem qualquer participação nele. A imagem de melancolia e de vazio existencial nas últimas cenas do filme são especialmente tocantes: o olhar duro do transtornado e transformado Jan, o suspiro melancólico de Eva, relatando, numa voz débil e pausada um sonhe que tivera com uma filha que tanto quera ter, dizendo “eu sabia que havia algo que eu tinha de lembrar. Alguma coisa que um de nós disse, mas da qual eu me esqueci. Eu comecei a chorar, que eu me lembre”. Uma sensação de fracasso e impotência perante a barbárie, só muito atenuada por uma possível embora vaga esperança numa terra distante.

É mais um filme fantástico de um diretor genial. Sem dúvidas, uma obra prima. Vale cada minuto e merece ser assistido com toda a atenção.

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Sobre Fábio V. Barreto

Católico, aprendiz de escritor, ávido por conhecimento, e outras coisas mais.
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