Book Review: “Apologia e Filosofia”, de Álvaro Ribeiro

Tenho dado atenção, nos últimos tempos, à filosofia concebida em Portugal. Por contingências de minhas leituras e também por certa inclinação impulsiva, acabei por não seguir, como de praxe, o método histórico-cronológico, estudando autores e escolas desde as origens até à atualidade. Acabei por me deter, ao menos por ora, no Movimento da Filosofia Portuguesa, especialmente na obre de Álvaro Ribeiro. Com essa disposição, li seu livro Apologia e Filosofia.

Considerado por alguns como o maior filósofo português do século XX, Álvaro Ribeiro publicou Apologia e Filosofia em 1953. O livro é, em grande medida, uma apologia da filosofia, do pensamento filosófico frente às correntes intelectuais antifilosóficas que faziam sucesso no Portugal de então, como o positivismo. Porém, mais do que isto, ele expressa ao longo deste volume uma das características típicas dos membros do Movimento Filosofia Portuguesa: distinguir o que se pode dizer como um pensamento filosófico especificamente português em relação as formas estrangeiras, especialmente a germânica, de fazer filosofia. O livro já começa comentando a importância absolutamente vital do aristotelismo para a filosofia lusa:

O pensamento filosófico português foi, durante séculos, referido a Aristóteles cujas obras, mediata imediatamente conhecidas, motivaram entre nós algumas interpretações escolásticas que lograram fama nas universidades estrangeiras. Não está ainda suficientemente esclarecida a história do aristotelismo na Europa Ocidental, porque nas traduções latinas e árabes, e nos comentários dos escolastas cristãos e islâmicos, nem sempre se pode discernir o que verdadeiramente corresponde ao pensamento do Estagirita. Muito menos conhecida é a história do aristotelismo português, porque faltam ainda os elementos para apreciar em que medida, e em que direção, se libertaram da letra para o espírito os nossos comentadores escolásticos.

Apologia e Filosofia-1

Não demora o filósofo portuense em fazer apologia da filosofia portuguesa frente ao mainstream filosófico lusitano:

Alheia às vicissitudes da cultura universitária, onde se deforma quando se reflecte, tem sido quase sempre inspirada por um espírito subtil e desconhecido a filosofia portuguesa. Descrever as características dessa filosofia e, depois de descrevê-las, defini-las, para que os conceitos e as teses se prestes às operações lógicas, é aventura por entre enganos e desenganos de quem terá de suportar a adversidade da crítica e esperar a ingratidão dos publicistas. Sabido, porém, que antes da aventura e da experiência não é possível desenhar o método, teremos de passar o risco das fabulações, conjeturas e hipóteses, se quisermos estabelecer disciplina rigorosa e exata.

Em relação à filosofia portuguesa, Álvaro Ribeiro mostra-se consciente de que o positivismo não constitui-se como sua única ameaça. O existencialismo também recebe dele reservas e críticas:

A doutrina positiva é a doutrina do porto seguro, enquanto a doutrina existencial é a doutrina do naufrágio, da ‘navis fracta’. Entre esses extremos domina a virtude que corresponde à vocação dos Portugueses, a virtude do Infante de Sagres. A filosofia portuguesa, outrora referida a Aristóteles, ao actualizar-se no período em que está ameaçada pelo existencialismo, não necessita mais do que recorrer a Bergson para deixar de se apavorar perante o ídolo do ‘nada’, e de recorrer a Hegel para verificar como se supera a dúvida entre o ser e o não-ser.

Em se tratando de Álvaro Ribeiro, é natural a presença de páginas e mais páginas sobre educação, especialmente de jovens, uma vez que nosso filósofo era não só muito preocupado com as questões educacionais mas também um verdadeiro pedagogista, como gostava de dizer. Vários capítulos da obra tratam dos problemas do formato então vigente na escola portuguesa, das características da grade curricular, bem como de sugestões para o seu melhoramento. Ele dedicou um volume mais pormenorizado sobre o tema, Escola Formal, de 1958, tido por alguns como umas das principais obras do Movimento da Filosofia Portuguesa.

Tendo atacado diretamente o materialismo positivista, Ribeiro demonstra o caráter metafísico e religioso do pensamento português, e como ele é parte inseparável da alma lusa naquele que é, talvez, um dos parágrafos mais belos de todo o livro:

A admirável doutrina de que Deus está em toda parte, permite-nos conceber a filosofia como via, vida e viagem pelo qual o pensador se aventura para corresponder a uma vocação superior, e habilita-nos a desenhar no plano da cultura o ideal artístico de educação da humanidade. O problema crucial está e decidir se o homem cumpre inteiramente o seu destino antes da morte e na sociedade, ou se, para além do mundo sentido e para além do mundo sensível, lhe será dado intuir a significação mais veraz da existência terrestre e mundana. A solução deste problema condiciona a especulação filosófica sobre as actividades sociais, especialmente sobre as actividades de cultura.

As mais de duzentas páginas que compõe a obra, porém, ao contrário do que poderia parecer, não tratam de assuntos unicamente portugueses. Embora o autor tenha sempre uma preocupação decidida pelos problemas de sua pátria, as reflexões de Álvaro Ribeiro atingem graus de universalidade que podem e devem inspirar homens de outros países e culturas para tratar de problemas idênticos ou semelhantes que certamente encontrarão em suas próprias terras e culturas. Aqueles que, no Brasil, tem ânsia por restauração cultural devem dar-lhe ouvidos. Oxalá este livro ganhe logo sua primeira edição brasileira.

Fábio V. Barreto

Anúncios

Sobre Fábio V. Barreto

Católico, aprendiz de escritor, ávido por conhecimento, e outras coisas mais.
Esse post foi publicado em Book Review, Filosofia e marcado , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s