Movie Review: “Ran”, de Akira Kurosawa

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Descobri o cinema de Akira Kurosawa em 2010, meio que por acaso, ao escolher Trono Manchado de Sangue numa locadora de filmes (ainda hoje pego filmes lá, para espanto dos mais jovens) para filme do fim de semana. Se antes só conhecia o diretor por ouvir falar de sua fama, descobri ali um artista fantástico, merecedor de muita estima e atenção.

Logo vieram outros filmes do mesmo cineasta, como Sonhos e Os Sete Samurais. Não demorou muito e assisti Ran, considerada por muitos o último épico do diretor. O filme, de 1985, consiste numa adaptação da peça Rei Lear de Shakespeare para a realidade do Japão feudal, recurso usado por Kurosawa em Trono Manchado de Sangue, no caso, adaptando Macabeth.

Ran (“caos” em japonês) traz-nos a história do clã dos Ichimonjins, chefiado por Hidetora. Ao fim de uma caçada, ele, já bastante idoso, reúne seus três filhos e decide repartir seus domínios entre eles: o mais velho Taro (interpretado pelo ator Akira Terao), Jiro ( vivido por Jinpachi Nezu) e Saburo (Daisuke Ryu). Hidetora ensina-os a permanecerem undos, pois assim se conservarão fortes, tais como as flechas reunidas em feixes são mais fortes do que cada uma delas em específico. Hidetora planeja levar uma velhice tranquila a partir de então.

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Por determinação de Hidetora, Taro passa a ser o chefe de seus irmãos, por deter o mando do feudo e da cavalaria, enquanto que os demais teriam bens menores. O caçula Saburo, porém, opõe-se à decisão paterna, alegando que, no fundo, a ganância entre os irmãos iria destruir o domínio criado pelo pai, pois os mesmos não teriam firmeza e solidariedade suficientes entre si para resistirem à tentação por mais poder. Tem lugar ali uma amarga discussão familiar que culmina com a expulsão de Saburo de sua família. Ele passa a ser malquisto pelos demais e os irmãos se apressam em maldizê-lo.

Hidetora cumpre sua partilha. Entretanto, o velho senhor de guerra logo percebe que seus últimos dias não vão transcorrer em paz, pois, de fato, as ambições de Taro e Jiro são muito maiores do que ele suspeitava e que os mesmos não tinham qualquer intenção de manter suas promessas de união. Isso fica muito claro quando ele é mal recebido na casa de Taro (cuja esposa maquina para que seu marido domine o clã Ichimonji e vingue sua família assassinada por Hidetora antes do casamento daquela com Taro). Vai a Jiro e percebe que ele quer usar o pai como instrumento para sobrepujar o irmão primogênito.

Desamparado por seus filhos, ele quer mandar incendiar as aldeias a eles pertencentes quando toma ciência do decreto de Taro: quem quer que ajude o velho Hidetora será condenado à morte. Aturdido, o velho senhor da guerra não vê outra solução senão recorrer ao filho mais novo, e renegado, Saburo. Ruma para o Terceiro Castelo, que seria de Saburo e que está vazio devido ao exílio deste e de seus homens.

Mas, nesse meio tempo, o que aconteceu a ele? Após ser expulso do clã, juntamente com Tango, Saburo é acolhido pelo nobre Nobuhiro Fujimaki, que também lhe concede a filha em casamento. Tendo superado a desgraça em ser deserdado e exilado, Saburo participa da guerra que já desemboca pelo controle do reino.

Desnecessário e mesmo prejudicial seria descrever ponto por ponto o desenrolar da trama, que tiraria de vez as surpresas do leitor ao assistir o filme. Porém é digno de nota comentar aqui a beleza e a magnificência das batalhas, tão bem orquestradas e coreografadas quanto violentas, por paradoxal que isso seja. O trabalho harmônico da fotografia impecável com o áudio das batalhas e a movimentação dos exércitos compõem um quadro dificilmente repetível num filme épico. Igualmente incrível é ver a descida progressiva de Hidetora da sanidade á loucura ao contemplar o caos criado pela guerra movida por seus filhos, o que até nos poderia levar a sentir certa compaixão do já decadente senhor de guerra, mas esse sentimento esmaece diante do fato de que ele construiu seu poderio através da pilhagem e da matança, inclusive de pessoas inocentes. Kurosawa talvez tenha intentado nos dizer em Ran que nem tudo é preto-e-branco mas sim matizado.

Nota para o papel de da Senhora Kaede, aquela que almeja vingança contra Hidetora e seu clã. É uma loba perversa mas, ao mesmo tempo, com certa dubiedade em suas ações, ironicamente, tal como seu tão odiado sogro. Ela faz esse papel com uma naturalidade ímpar.

Tudo isso só foi possível pela junção de dois artistas genuínos: Shakespeare e Akira Kurosawa. Para aqueles interessados pelo Japão e sua história, pelas artes marciais, pelos melindres do coração humano, pela criação shakespeareana ou por autênticas obras de arte, Ran é um filme simplesmente indispensável.

Fábio V. Barreto

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Sobre Fábio V. Barreto

Católico, aprendiz de escritor, ávido por conhecimento, e outras coisas mais.
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