Queima das Fitas, 2016

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Enquanto minha vida corre dura em meio à crise econômica brasileira, acompanhando um processo de impeachment mais difícil de se concluir do que achar cabeça de bacalhau, à luta pelo mercado de trabalho, pelo crescimento intelectual e por mil e uma ocorrências do cotidiano, corre solta a Queima das Fitas de Coimbra.

Sim, mesmo à distância e com o tempo há muito transcorrido, não deixo de pensar nessa cidade tão amada, que me acolheu por anos que talvez estejam dentre os mais felizes da minha vida. E menos ainda poderia eu deixar de tomar nota do grande evento do calendário estudantil da cidade tricana que é a Queima das Fitas.

Já a partida, aviso aos leitores não-portugueses (especialmente aos meus compatriotas) de que, se você nunca viu uma Queima (como carinhosamente a chamamos), não tem a menor ideia do que seja. Não tem mesmo, e não adiante se fazer de surpreso ou ofendido. Não há símile no Brasil. As nossas calouradas (pelo menos é o que havia quando ingressei na universidade. Hoje já não sei se ainda existem) são meras festinhas perto da Queima das Fitas portuguesa, sobretudo da de Coimbra, a maior do país, tão grande que atrai universitários de todo o Portugal.

São oito dias de muita festa, um intensivão de farra regado a muito álcool e irreverência. Inicia-se na noite de véspera, com a Serenata Monumental, quando o fado universitário reúne-se no Largo da Sé Velha para cantar os grandes temas do fado coimbrão, lotando não só o Largo (é praticamente impossível locomover-se ali, mesmo para uma distância mediana, nas quando o público enche o espaço), como as ruas que desembocam ali, numa extensão de centenas de metros.

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O grande símbolo da festa, porém, não é nem bem a queima das fitas e a imposição de insígnias, ocorridas no pátio da Sé Nova, mas sim o Cortejo, que ocorre no domingo. Cada curso prepara carros alegóricos com suas respectivas cors e os concentra nas proximidades da Porta Férrea, a entrada da Faculdade de Direito, o prédio mais antigo e tradicional da Universidade de Coimbra. Eles distribuem comida e bebida gratuita aos participantes (o que muito nos interessava!) até que, começavam a descer para a Avenida Sá da Bandeira com destino ao outro lado do Rio Mondego. A pândega corria solta, e ao fim do dia só o que se viam eram estudantes rotos, esfarrapados, embriagados, sujos, suados… e felizes, mortos de felizes com tanta descontração e brincadeira.

O Cortejo é também quando os caloiros (novatos) podem finalmente envergar o famoso traje académico que, no seu desenho actual, mais se parece com um fato com uma longo capa preta por cima dos ombros e um gorro que quase ninguém usa. Apesar de uma minoria radical protestar contra o traje, ele segue a ser um símbolo do estudante de Coimbra e usá-lo dá ao aluno uma sensação de pertença a um grupo diferenciado. É o rito de ingresso num novo grupo e numa nova fase da vida. E toda essa sensação não é mero capricho subjetivo, mas sim uma realidade.

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A Queima é o descarrego de uma gente que passa meses sob o peso das cobranças académicas e que já se prepara a para o grave período de austeridade que se segue à Queima: a Época de Exames, quando esses mesmos jovens pândegos abandonam repentinamente as noitadas e a descontração para se entregar de cheio aos livros e apontamentos, estudando de oito à dez horas por dia para serem aprovados nos dificílimos exames universitários. Há quem vire noites a estudar e mesmo recorra a medicamentos, nem sempre o fazendo da forma mais saudável e segura.

Confesso que muito há ainda a se falar a respeito mas, no momento, me vejo sem palavras para tal. Enquanto escrevo essas linhas, ouço os fados de Coimbra pela internet e isso enche-me o peito de um saudosismo tão gostoso, tão português e também que muito orgulho me desperta por ter sido aluno da Universidade de Coimbra, recordação doce e bela que, apesar de tudo o que possa me ocorrer no futuro, levarei com carinho em meu coração, até o último dos meus dias, para a Eternidade.

Fábio V. Barreto

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Sobre Fábio V. Barreto

Católico, aprendiz de escritor, ávido por conhecimento, e outras coisas mais.
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2 respostas para Queima das Fitas, 2016

  1. A queima das fitas, assim como todas as tradiçõezinhas académicas portuguesas, nomeadamente da Universidade de Coimbra, é uma palhaçada de atrasados mentais sem qualquer relação com aquilo a que se chama UNIVERSIDADE.
    Só é perdoável que lhe aches graça por seres estrangeiro e teres uma visão romântica e exotífera deste lugar.

    • Prezada Margarida,

      Nao ha vida saudavel sem tradicao, e as que a senhora referiu nao so sao necessarias como salutares. Sem tradicao ha apenas uma sucessao de pedacos de vida desconectados entre si, sem seu lastro historico e causal. E uma deficiencia facilmente observavel aqui no Brasil, que nao possui o bom habito de preservar e aperfeicoar suas tradicoes.
      Alem disso a vida academica nao pode ser somente feita de livros, aulas e pesquisas. E necessaria a socializacaos dos universitarios, bem como os ritos de iniciacao.
      Concordo, contudo, que existem abusos e que os mesmos devam ser corrigidos.

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