A viagem derradeira

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De tempos em tempos ocorrem em nossa vida abalos que nos estremecem e podem nos fazer desesperar deste mundo, desprezar o valor de aqui estar, mas também o de repensar sobre o valor da existência, sobre o quão nobre ela é e como nossa vida deve ser valorizada a cada dia, com uma atitude de enobrecimento pela santificação e atenção ao seu sentido transcendente.

Digo isto inspirado por um fato inesperado e que para mim não é de pouca monta. Há dias tentava eu telefonar para a minha antiga senhoria de Coimbra, quando ainda vivia em Portugal. Preciso para lá ir neste semestre, resolver pendências burocráticas junto à Universidade e queria eu saber se havia quarto disponível pra mim. Por razões várias telefonava mas a ligação estava com problemas, que modo que nunca falava com ela nem com seu marido.

Ontem tentei novamente e consegui. O Sr. Nelson, marido da senhoria, atendeu-me. Falava com uma voz baixa, um tanto confusa, como se estivesse com problemas de garganta ou com bastante sono ainda.

– Olá, Sr. Nelson! Aqui é o Fábio, do Brasil! Como estão as coisas? Tá tudo a correr?

-Oi. Aqui está uma merda, tá tudo uma merda…

-Mas que houve? A D. Helena…

– A Helena faleceu…

-Hã?

– A Helena faleceu… há seis meses já…

– Ô meu Deus! Sério? Que horrível…!

-É… 12 de Junho…

-Como foi isso?

-Tá tudo uma merda… (algo ininteligível). Uma merda…

-Que pena, não sabia!

– É… aí a casa tá toda virada, porque eu não faço nada…! Isto aqui está uma bagunça!

-Ih…

-Mas o que é? Você queria vir para cá?

-É, preciso ir para aí e queria saber se tinha o quarto disponível.

-Olha… eu vou ver… tenho que arranjar isto aqui, está uma bagunça… tenho que tocar a vida, continuar, pois não?

-Sim, claro!

-Tenho que continuar com a vida.

-Sim, tem de ser!

-Pois! Mas vou ver… isto aqui está uma bagunça… uma merda… olha, quando é que vens?

-Ainda não decidi, mas deve ser lá para Abril.

-Abril? Quando estiver perto, com uns dias antes, telefonas-me que te digo se arranjei isto… porque como está não é possível… senão terá de ir a outro lugar… uma merda…

-Tá bem… olha, liguei para isso e para saber das coisas daí…

-E por aí, tá tudo a correr?

-Sim. O pai tá bem, a irmã tá boa, o menino tá bem…

-Tá bem…

-Então até lá, sr. Nelson! Vou rezar por ela! Que tudo corra bem!

-Tá, obrigado… até logo!

Desliguei, com ar pesaroso. Foi duro ouvir aquilo. A D. Helena, que me acolhera tão bem nos meus últimos tempos de minha estadia coimbrã, que fora quase que uma parenta para mim, que confiara plenamente em mim logo que me conhecera, já não anda neste mundo. Fez a viagem derradeira, para prestar contas de sua vida ao Criador e encontrar seu destino eterno. Se é verdade que ela teve muitas tristezas e tribulações nesta vida – coisas das quais ele me falava frequentemente – e agora pode descansar em paz, também é verdade que ela deixa saudades para nós que ainda estamos nesse vale de lágrimas. E isto pesou-me um pouco por todo o dia, mesmo quando eu me mostrava feliz e sorridente.

Creio que o que mais choca na morte é isto: a morte é tão definitiva! Não se trata de fazer uma viagem para uma terra distante ou de estar num internamento isolado num hospital; já não veremos aquele que parte neste mundo. Nunca mais. E eu estava ansioso por revê-la quando fosse para Coimbra! O peso dela se refletia na voz do viúvo, que mostrava sentir duramente o falecimento da mulher mesmo depois de meio ano da partida dela.

Nesta hora muito do que valorizamos e pelo qual sofremos em vida perde todo ou boa parte do seu valor: honrarias, diplomas, procedência, patrimônio, residência. A que interessa tudo isso num momento como esse? Frente à fatalidade da morte tudo isso se dissolve e lembramos-nos de que todos nós, um dia, deixaremos esse mundo ora tão amado, ora tão odiado, para termos nossas vidas julgadas por Deus e arcarmos com nossas responsabilidades pelas escolhas feitas em vida.

Mas é preciso continuar. Lamentar-se é justo e compreensível, mas não pode prolongar-se indefinidamente. Por nós mesmos, por aqueles que nos cercam, por aqueles que já se foram e também por Deus, temos de orar por quem se foi e depois retomar nossas vidas, com coragem, determinação e consistência. A vida por cá continua e, se pedimos pela ajuda de Deus, ela virá.

Fábio V. Barreto

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Sobre Fábio V. Barreto

Católico, aprendiz de escritor, ávido por conhecimento, e outras coisas mais.
Esse post foi publicado em Avisos, Crônicas, Obituários, Portugal, Recordações e marcado , . Guardar link permanente.

Uma resposta para A viagem derradeira

  1. Vanessa B. Maya de Omena disse:

    …e Deus é tão Deus que nos dá a oportunidade da renovação em vida e vidas.Certamente, as experiências acumulados pelo ser, e o que foi adquirido-apreendido e realizado nesta vida não será em vão.

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