Do Anti-olavismo: um rascunho

Olavo-de-Carvalho

Fenômenos culturais significativos provocam reações das mais diversas. Dos maiores apologistas aos mais ferrenhos críticos, muitos falam e agem referenciados ao fenômeno em causa. No Brasil atual, um fenômeno cultural que tem causado as mais acesas controvérsias desde pelo menos os anos 90 do século passado é o filósofo Olavo de Carvalho.

Não analisarei aqui a obra de Olavo de Carvalho em conjunto pois nem tenho ainda a qualificação necessária para tal empreendimento e nem esse é o objetivo deste texto. O que farei aqui é tentar traçar um esboço do anti-olavismo que, se é uma constante à medida em que o filósofo desenvolve e divulga o seu trabalho, reveza-se em tempos de erupção e agressividade relativamente passiva.

Quem acompanha o trabalho de Olavo de Carvalho há algum tempo certamente já topou com alguns detratores e suas críticas ao seu trabalho e à sua pessoa. Algo que chama atenção nisso, além da habitual passionalidade dos críticos, é o fato de que eles não tem um perfil ideológico, intelectual ou religioso único. Há nesse meio marxistas, liberais, tradicionalistas, protestantes, católicos, anarquistas, fascistas, eurasianos, perenialistas, muçulmanos, ateus, centristas, etc. Não há como negar: o anti-olavismo é plural.

Como, porém, a identidade grupal é para eles um tesouro muito esmerado, não raro a crítica opera no sentido de ver no filósofo campineiro a bête noir que suas identidades determinam. Assim, dentre os juízos negativos que emitem sobre ele, contam-se os seguintes:

– Olavo não presta porque é um fanático católico;
– Olavo não presta porque é um católico meia-boca/liberal;
– Olavo não presta porque é filoprotestante;
– Olavo não presta porque é perenialista/ecumenista;
– Olavo não presta porque é muçulmano/pró-islâmico;
– Olavo não presta porque é sionista/judaizante;
– Olavo não presta porque é ultraconservador/de extrema-direita;
– Olavo não presta porque é liberal/neoliberal;
– Olavo não presta porque é marxista (sic!!!);
– Olavo não presta porque repudiou o Brasil;
– Olavo não presta porque é americanólatra;
– Olavo não presta porque é eurocêntrico (sic!!!);
– Olavo não presta porque é autoritário;
– Olavo não presta porque fala palavrão;
– Olavo não presta porque não tem diploma;
– Olavo não presta porque é chefe de seita;
– Olavo não presta porque é militante demais e não tem qualificações para o trabalho intelectual sério;
– Olavo não presta porque é um intelectual nefelibata que só fala em cultura porque tem medo de agir e organizar uma militância;
– Olavo não presta porque é “um perigoso agente provocador” que está preparando “uma guerra civil no Brasil” (sic!!!).

E por aí vai. Vês-se por esta amostra que os anti-olavistas não são nada concordes em suas tentativas de explicar o fenômeno Olavo de Carvalho. Afinal de contas alguém, em sã consciência, pode mesmo acreditar que alguém possa ser tudo isso ao mesmo tempo? Tantos predicados não só diferentes mas auto-contraditórios e auto-excludentes assumidos por uma só pessoa que, juram, não tem muita importância nem muito valor, embora falem dele de maneira quase obsessiva. Quem pode acreditar nisso e ainda ser considerado alguém sério, inteligente e sensato?

Interessante notar que nisso o filósofo brasileiro está na mesma situação de outras grandes figuras do pensamento, como Hans Kelsen e Eric Voegelin. A Teoria Pura do Direito já foi apodada de liberalismo democrático por fascistas e de posto avançado do fascismo por liberais-democratas, bem como de ser uma teoria protestante do Estado e do Direito, dentre outros. No que respeita a Voegelin, deixemos que o autor das Reflexões Autobiográficas fale por si mesmo:

“Por causa desta atitude [a independência intelectual], fui chamado, por partidários desta ou daquela ideologia, de todos os nomes possíveis e imagináveis. Tenho em meus arquivos documentos tachando-me de comunista, fascista, nacional-socialista, liberal, neoliberal, judeu, católico, protestante, platônico, neo-agostiniano, tomista e, é claro, hegeliano; registre-se, ainda, que eu era, supostamente, muito influenciado por Huey Long, Dou grande importância a esta lista, pois os vários rótulos permitem identificar a bête noir do respectivo crítico e dão, assim, um retrato bastante fiel da corrupção intelectual que caracteriza o universo acadêmico contemporâneo. Entende-se porque eu nunca respondi a críticas desse tipo: seus autores podem ser objetos de estudo, mas jamais interlocutores numa discussão.” (RA, págs. 80-81).

Penso que já se pode concluir o que o anti-olavismo NÃO É: ele não é “pura inveja”, nem “clara perseguição esquerdista”, nem “academicismo incurável”. Afinal de contas, como vimos, o perfil ideológico, intelectual e mesmo religioso dos detratores não tem qualquer uniformidade. Ele é tudo isso ao mesmo tempo e muito mais: é uma unidade numa negação, cuja multiformidade reflete o caos mental de muitos diante de um fenômeno que desprezam mas que não podem compreender. No dia que a obra de Olavo de Carvalho foi melhor avaliada, estudada e meditada (e creio que isso deve levar ainda algumas décadas), o fenômeno do anti-olavismo será, sem dúvidas, estudado como um exemplo de que vivemos hoje numa época doente e impulsiva, mas que não foi capaz de ofuscar o brilho da inteligência quando este insistia em iluminar a escuridão reinante.

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Sobre Fábio V. Barreto

Católico, aprendiz de escritor, ávido por conhecimento, e outras coisas mais.
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2 respostas para Do Anti-olavismo: um rascunho

  1. Caterina disse:

    Muito bom !! A inveja realmente é uma coisa notória nos que o critica!

  2. Vanessa B. Maya de Omena disse:

    Uma análise sem paixões, mas com muita capacidade para iluminar. Obrigada!

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