Thomas More e a Virtude da Obediência

São Thomas More, mártir.

São Thomas More, mártir.

Apresentação que fiz ao meu Grupo de Estudo do Catecismo, há umas duas semanas, sobre São Thomas More, em versão mais organizada e estruturada.

Boa tarde a todos! Mais do que tratar da virtude da obediência, quis aqui tratar da vida de um santo interessantíssimo, que comecei a conhecer á sério recentemente, tanto por causa do grupo que frequento na Unifor como pela preparação mesma desta apresentação.

São Thomas More é mais conhecido como o filósofo da Utopia do de propriamente como santo católico. O que causa até certa estranheza, pis muitos o tem como um precursor do pensamento comunista, por ter concebido já no século XVI uma sociedade igualitária. Isso na verdade deve-nos a ver que seu pensamento é um tanto complexo, e isso será posteriormente abordado. Mas, por que esse homem é um santo?

Primeiramente, vamos à introdução biográfica de praxe: São Thomas More nassceu em Londres em 1478, segundo suas próprias palavras, “de família honesta, mas não célebre”. Mesmo sendo filho do juiz John More, a família era bastante humilde, porém culta e piedosa. Aos 27 anos ele casou-se con Jane Colt e teve com ela 4 filhos: Margareth, Elizabeth, Cecily e John. Entretanto, este tão feliz lar não duraria muito: seis anos após o casamento, Jane falece. More fica profundamente triste pelo ocorrido mas, desejoso de reconstruir seu lar, tornou a casar-se apenas um mês depois, com Alice Middleton, uma mulher mais velha, que tinha um caráter forte mas que administrava o lar com rara doçura. Esse casamento contou com certa oposição dos amigos de More, dentre outros motivos pelo fato de ela ser pouco afeita a intelectuais, categoria que abrangia boa parte das amizades do santo, mas o fato é que o casamento vingou até o fim e que More a amou profundamente.

Seu lar era muito feliz. A casa estava habitualmente cheia, e dentre os amigos que a frequentavam estavam o filósofo holandês Erasmo de Roterdã e o espanhol Luís Vives. More dava muitíssima atenção aos filhos. Certa vez, escreveu a uma das meninas a seguinte carta: “Não consigo expressar adequadamente, queridas filhas, como estou contentíssimo com as vossas deliciosas cartas; acreditai-me se digo que nada há mais que me deleite , no meio dos meus trabalhos cansativos, do que ler o que me chega de vós”. Outra vez, sua filha Meg escreveu-lhe a pedir algum dinheiro. Ele respondeu: “És demasiado tímida e reservada no teu pedido, porque pedes a um pai que está ansioso por dar-te, e porque escrevestes-me uma carta tão bela que não só estaria disposto a pagar uma moeda de ouro por cada linha mas mesmo duas onças de ouro por cada sílaba, se os meus meios materiais fossem tão abundantes. Mas, dadas as circunstâncias, envio-te só o que me pedes. Teria acrescentado mais se não fosse porque, assim como estou ansioso por dar-te gosto também de que minha filha me peça e suplique com agrado, especialmente tu, cuja virtude e estudos te tornaram tão querida ao meu coração. Adeus, queridíssima filha”.

More esmerou-se na educação dos próprios filhos, não distinguindo o que lecionava ao menino e às meninas. A todos fez estudar latim, grego, lógica, astronomia, medicina, teologia e matemática, tal como era a educação de costume na época.Sua filha Meg chegou a corrigir um texto latino de S. Cipriano que passara batido entre os eruditos e mesmo o Rei da Inglaterra, certa feita, chamou as filhas de More para um debate filosófico na Corte. Ele valorizava muito os estudos, sendo bastante aplicado e notável desde jovem, quando tornou-se aluno de uma figura deveras distinta na sociedade britânica da época, o cardeal Morton, que participou do processo de paz ao fim da Guerra das Duas Rosas, quando aprendeu etiqueta, literatura (ele escrevia poemas em inglês e latim com maestria), além dos primeiros conhecimentos sobre política e diplomacia. Aos 14 anos foi para Oxford, não só para estudar cultura clássica mas também para amadurecer pessoalmente. Tempos depois ingressa no curso de Direito e forma-se, aos 20 anos, não demorando para se tornar um advogado competente e prestigiado.

Entretanto, é importante frisar que ele não considerava o estudo apenas como uma finalidade utilitária profissional ou com o acúmulo de conhecimentos ( dois equívocos tão frequentes em nossos dias), as queria a síntese entre o intelecto e a fé. Para ele, o estudo tinha por função o melhoramento pessoal. De nada adiantava estudar muito e acumular saberes e títulos se não se tinha aprimorado o caráter e fortalecido a fé. Os autênticos frutos do estudo para ele eram a simplicidade, o desapego, a vida honesta e o temor a Deus.

Além de advogado, More também foi diplomata e seus serviços na cancelaria marcaram sua ascensão profissional e intelectual. Foi quando ele desfrutou da amizade e confiança do rei Henrique VIII, o mesmo que anos depois haveria de se tornar o seu algoz. Mesmo servindo com frequência e fidelidade o monarca, o santo tinha ciência do caráter do mesmo e da delicada situação em que estava. Henrique VII começou seu reinado como um bom monarca, justo e temente a Deus, mas logo começou a degenerar e a dar sinais de autoritarismo, ambição ilimitada e pouca vida cristã. Ilustrativo disso foi o fato de que, no ano de 1527, certa vez, estavam ele e seu genro Roper passeando por um jardim quando este dizia-se muito contente com a crescente amizade entre o sogro e o rei (decerto prevendo que mais facilmente conseguiria favores reais para a obtenção de títulos de nobreza e cargos públicos), More pôs-se sério e disse para que ele não se enganasse, “pois se com a minha cabeça o Rei pudesse ganhar um só castelo na França, não há dúvidas de que não a traria eu sobre os meus ombros”.

Henrique VIII, o tirano e algoz.

Henrique VIII, o tirano e algoz.

Vamos agora falar do filósofo da Utopia: ela é sua obra mais conhecida. More era um crsitão mas também um humanista da Renascença. Isso põe seu pensamento numa zona problemática e ele tenta fazer a difícil síntese entre o catolicismo e o humanismo pagão. Por isso os utopianos tem algo do hedonismo epicúreo, mas More foi suficientemente cristão para estabelecer que nessa sociedade fictícia as pessoas devem crer na Providência , na imortalidade da alma e no destino último do homem. Em seu diálogo, More comenta o bom nível dos costumes dos ilhéus e reconhece, com uma certa mescla de lamento e ironia, que a conduta deles era mais cristã do que a de muitos cristãos de fato.
Politicamente, a Utopia tem um regime democrático com leis severas para os delinquentes. Economicamente não existe propriedade privada, mas sim coletiva no sentido estrito do termo, uma vez que ela não é propriedade estatal, mas é tratada como coisa comum dos utopienses. Seria isso um comunismo? Rafael Hitlodeu, o navegador português que os leva até a ilha imaginária, comenta isto com certo entusiasmo, ao que Thomas More retruca: “Eu sou de opinião contrária, e penso que os homens nunca poderão viver prosperamente onde todas as coisas forem comuns”. Isso opõe-se diretamente à noção marxista de coletivização dos meios de produção e é um sopro de realismo numa obra de imaginação. E tal posição aparece reforçada nos parágrafos finais do livro.

Vamos então ao episódio mais dramático da biografia de More e, sem dúvidas, ao mais interessante aqui: o casamento do Rei Henrique VIII. O monarca britânico entendeu que sua esposa, a princesa espanhola Catarina de Aragão, não mais engravidaria e queria por tudo obter do Papa a anulação de seu matrimônio para casar-se com sua amante Ana Bolena (ele fora amante da irmã desta anteriormente).Sem a anulação papal, seria completamente impossível contrair novo matrimônio. Tentou, sem sucesso, subornar os assessores do Papa Clemente VII. O rei ordenou que os cardeais britânicos enviados a Roma formassem em Inglaterra mesmo um tribunal e julgassem o caso por si próprios. Escondido por detrás de uma coluna, ele acompanhou a Corte. Na sala do tribunal, o núncio Campegi declarou. “Não estou disposto a condenar a minha alma por nenhum príncipe ou potentado. Assim, não levarei adiante este caso, a menos que tenha sobre ele critério e opiniões justas, com o assentimento do Papa e das pessoas de seu Conselho mais experientes do que eu em matéria tão duvidosa. Em conformidade com os tribunais de Roma, de quem esse tribunal depende, fica adiada por ora a sentença”. O rei enfurece-se, assim como diversos outros nobres. O duque de Suffolk chega a um brado que raia o cisma: “Nunca existiu alegria na Inglaterra enquanto houve cardeais entre nós!”. O Lord-Chanceler Wolsey é destituído de seu cargo e Thomas More é convidado a ocupá-lo.

O santo desempenhou sua função com primor, colocando em dia as muitas pendências judiciais atrasadas (o cargo tinha funções judiciais além de políticas). O rei logo insistiu para que ele tratasse de seu conturbado assunto matrimonial, mas que não fizesse nada contrário à própria consciência (saberia ele que estava diante daquele que jamais, por nada neste mundo, transigiria com seu pedido?). Mesmo ocupando um cargo tão importante, ele nunca foi soberbo e manteve-se na simplicidade, no desapego, na retidão e na piedade até o fim de seus dias.

As manobras do rei para anular seu matrimônio continuaram. Ele queria submeter todos os bispos ingleses à sua causa e buscou pareceres favoráveis à mesma em várias Universidades europeias. Chegou a organizar um abaixo-assinado ao Papa feito por bispos pedindo a anulação de seu matrimônio. Diante desses insucessos, recorreu ao Parlamento, ao ponto que propôs ao clero la reunido que o reconhecessem como senhor supremo da Igreja na Inglaterra. Não era ainda o cisma, mas as atitudes reais mostram uma clara escalada nesse sentido. Quando este veio, More caiu em desgraça ante Henrique VIII e deixou seu cargo.

Ele acabou por ser recolhido prisioneiro na Torre de Londres e lá escreve o Diálogo de Consolo Contra a Opressão. A família e os amigos visitam-no, e ele segue firme e íntegro em suas posições.

Diversos fatos se sucedem aí que demonstram a grandeza de espírito de nosso santo. Certa vez, a esposa lamentava por ele lá estar e dizia para que ele tentasse se retratar com o Rei, pois assim voltaria para seu lar, sua família e sua biblioteca, ao que More retrucou: “mas tudo isso não está tão longe do Céu quanto esta prisão?”. Noutra ocasião, perguntou à esposa por quantos anos mais ele achava que eles viveriam juntos caso More se retratasse. “Uns vinte anos, talvez”, respondeu ela. “Filha”, retrucou ele, “não serves para negociante. O que são vinte anos comparados à eternidade?”. Um terceiro caso: o duque de Norfolk foi visitá-lo e, como de hábito de todos os que o faziam, tentou convencer More a aceitar o novo casamento de Henrique VIII, para fugir da morte. “Sabe qual a diferença entre nós?”, respondeu nosso santo, “a diferença é que eu vou morrer amanhã e o senhor vai morrer depois de amanhã.”. Nisso ele foi profético: o duque foi executado a mando de Henrique VIII dois anos depois de More, se não me falha a memória.

More foi executado no dia 06 de Julho de 1535. Antes de ser decapitado, instruiu o carrasco a executá-lo de forma que a honra deste não ficasse maculada e que tudo fosse muito rápido. Morreu como “bom servo do rei, mas de Deus primeiro”.

Henrique VIII enfurece-se com a crescente fama de santidade de Thomas More e persegue sua família e seus amigos. O corpo do santo é jogado numa vala comum, para turbar-lhe a devoção. Cresce a iniquidade do rei (que haveria de mandar matar outros nobres, clérigos e mesmo Ana Bolena e outras esposas que teve ao longo dos anos) e a veneração a Thomas More.

A vida de Thomas More ensina-nos diversas virtudes: piedade filial, santificação do lar e do trabalho cotidiano, colocar Deus como o centro da própria vida, e a obediência.

O dever de obediência impõe a todos prestar à autoridade as honras a ela devidas e cercar de respeito e, de acordo com o seu mérito, de gratidão e benevolência as pessoas investidas de autoridade.

Ao dizer-se “bom servo do rei, mas de Deus primeiro”, Mor deu um exemplo contundente de como obedecer aos poderes temporais dando primazia à soberania divina. A hierarquia da obediência foi respeitada ao máximo., mesmo com um preço tão alto a pagar. Ele tremeu, angustiou-se, mas não fugiu ao martírio. Preferiu-o a desobedecer a própria consciência formada pela Igreja e por Deus. E , no fim das contas, foi mui justamente recompensado com a santidade.

A vida de São Thomas More deve levar-nos a refletir sobre se temos dado testemunho de Deus com frequência, se não cedemos aos respeitos humanos, se a hierarquia da obediência é respeitada e até onde vamos nisso.

Por fim, quero-vos recomendar que estudem a vida dele, leiam seus livros e assistam ao filme O Homem que Não Vendeu Sua Alma, de Fred Zinnemann, que muito me ajudou na inspiração para a elaboração desta apresentação. Muito obrigado!

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Sobre Fábio V. Barreto

Católico, aprendiz de escritor, ávido por conhecimento, e outras coisas mais.
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