Mortificação e Virtude da Fortaleza

mortificação

Esse texto é o desenvolvimento da transcrição da palestra que proferi no Grupo de Estudos São Thomas More, na Universidade de Fortaleza, em 08 de Agosto passado. Foi a primeira palestra que fiz a esse grupo, e espero que seja apenas a primeira de uma longa série de apresentações já planejadas.

Agradeço ao Mateus Andrade pelo convite e a todos por terem vindo dedicar algumas horas da tarde deste sábado para me ouvir falar sobre a mortificação e a virtude da fortaleza 8aliás, esse é o verdadeiro título desta palestra). O curto prazo de menos de uma semana não me permitiu preparar algo mais extenso e melhor, mas creio que consegui fazer algo ao menos apresentável.

“Mortificação”: essa palavra assusta porque lembra-nos do quê? Da morte. E isso tem sentido. Nosso caminho para a perfeição espiritual passa pela cruz (Nosso Senhor Jesus Cristo é o nosso maior modelo). Lembremos-nos aqui do que diz o Evangelho em Mt 16, 24: “S alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”. Mortificar-se é, de certa forma, morrer para o mundo. Trata-se de uma forma de renúncia.

Ao tratar deste tema, sempre nos focamos nas formas mais comuns de mortificação: jejuns nas datas prescritas pela Igreja, uso do cilício, do látego ou da penitência sob a orientação de um diretor espiritual, dentre vários outros. São todas formas legítimas de mortificação, e nós não as devemos ver com maus olhos como costuma fazer o mundo moderno e secularizado, mas não eram elas as quais eu tinha em mente qundo elaborava essa palestra, elas não são as principais aqui.

Entende que é melhor nos ocuparmos das pequenas mortificações diárias que todos nós podemos fazer: evitar guloseimas e alimentos que nos são prazeirosos por outros que nao o são vez por outra, ser paciente para com os demais quando “o sangue ferve”, acordar à hora certa todos os dias, fazer seus deveres sem desleixo e com amor, estudar ainda quando não se tem vontade de o fazer, ser prestativo e generoso mesmo quando nosso egoísmo nos sugere agir de outra forma, etc. É importante sempre ter em mente o sentdo sobrenatural da mortificação: privações e contrariedades não são males absolutos e podem se converter em oportunidade de aprefeiçoamento espiritual e do caráter. Percebam aí que as virtudes da laboriosidade e da mansidão não estão longe.

Mortificação é passar por cima de si mesmo, é enfrentar as próprias más tendências em vista do aperfeiçoamento espiritual. Diante dos vários fatos da vida temos, basicamente, duas reações possíveis: uma instintiva/impulsiva e outra “forçada”/ predeterminada, escolhida por nós mesmos. Diante de um revés profissional, por exemplo, podemos nos amedrontar e descrer em nossas capacidades e nosso futuro ou podemos entender que nem sempre a vida profissional é feita de vitórias, aprender com os próprios erros e seguir em frente. Face a uma desilusão amorosa podemos nos tornar amargos, pessimistas e depressivos, bem como entender que o que aconteceu não é o fim do mundo, que pode-se superar isso e partir em busca de um novo amor. Em cerca de 90% dos casos, a atitude instintiva, sempre a mais fácil, é a pior via a se tomar. Percebe-se que a mortificação caminha pela outra via, mas com sentido espiritual.

Uma marcante diferença entre homens e animais é a de que somos livres para contrariarmos os nossos instintos; temos essas duas possibilidades de ação face ao que se nos sucede. Os animais, por seu turno, só agem instintivamente. Eles nunca podem predeterminar suas ações nem se mortificar. Somos também dotados de imensa mutabilidade e adaptabilidade. E sacrificar-se a si próprio para crescer espiritualmente é talvez o ato mais nobre que podemos praticar. Não se trata de um sacrifício vazio e soco como faziam os antigos estóicos (eles cultivavam uma impassividade diante do sofrimento que era como que uma causa em si mesmo circunscrita), mas de um sacrifícioque possui sentido. E temos um modelo objetivo disso. Nosso Senhor Jesus Cristo. E outros mais acessíveis, que mostram que isso é sim possível para um ser humano: os santos.

A mortificação deve ser diária? Sim. Algo que nos faça bem, que colabore para o nosso aprimoramento deve ser feito sempre que possível, de maneira regular, para frutificar melhor. Quando não os vencemos, somos derrotados. Nosso auto-sacrifício é nossa vitória. “Poupar-se”, aí, é derrotar-se.

Mas porque é tão difícil mortificar-se diariamente? São vários os fatores que concorrem para isso: Nossa fraqueza inata, a cultura profundamente hedonista na qual vivemos, desconhecimento quanto ao que seja a mortificação, a impulsividade reinante, etc. Só para ficar no fator da cultura hedonista, muito provavelmente o mais forte de todos: não é verdade que o homem contemporâneo não se sujeite ao sacrifício; ele o faz, mas quase sempre por algum motivo fútil e vaidoso, só raramente sacrificando-se por algo mais nobre. Quantas pessoas, por exemplo, não se submetem a dietas duras, muitas das quais prejudiciais à saúde, apenas porque são praticadas e recomendadas por celebridades consideradas “beldades”, mas que acham “fanatismo” ou “exagero” os jejuns prescritos pela Igreja?

Creio que já está clara a relação entre a mortificação e a virtude cardeal da fortaleza: a fortaleza é aquela virtude que nos dá a segurança nas dificuldades, firmeza e constância na procura do bem. Ela firma a resolução de resistir às tentações e superar os obstáculos na vida moral quando, por exemplo, permanecemos fiéis ao nosso cônjuge mesmo diante de oportunidades de uma aventura extraconjugal ou de permanecer na fé ainda que se passepor uma crise religiosa. A virtude da fortaleza nos torna capazes de vencer o medo, mesmo o da morte (santos como São Thomas More, Santo Estevão e outros mártires demonstram isso muito bem), de suportar a provação e a perseguição. O forte pode até aceitar sacrificar-se para defender uma causa justa, uma vez que a própria fortaleza venceu seu medo inato: “No mundo tereis tribulações, mas tende coragem. Eu venci o mundo”(Jo 16,33)

Assim como a mortificação cristã não é estoicismo, a virtude da fortaleza não é a atualmente tão propalada e supervalorizada “motivação”: esta consiste num paliativo psicológico que precisa ser reforçado com frequência pois não opera verdadeiras mudanças pessoais, ao passo que a fortaleza tem fundamento e sentido sobrenaturais.

Dizia eu que somos livres para contrariarmos os nossos instintos. Assim, podemos ser mais fortes do que somos. Como? Em primeiro lugar, sendo rígidos conosco mesmos. Mortificando-nos, fortalecemos-nos. Isso não fica num plano celeste ou “ideal”; é possível ver isto já nesta vida, em nosso cotidiano. Pode-se dizer, sem medo da polêmica que isso vai causar, que viver sempre segundo a própria vontade não faz a nossa vida feliz.Isso porque, como já foi dito, nossas tendências raramente nos levam a fazer o melhor, mas sim o mais cômodo e mais fácil. Viver segundo suas próprias tendências, algo que algumas pessoas inconscientes e inconsequentes consideram a vida ideal, significa, quase sempre, ser sedentário, glutão, preguiçoso, egocêntrico, relaxado nos deveres profissionais, pessoais e espirituais; emocionalmente instável; propenso a traições; etc. Não é essa a melhor vida que podemos ter e nem é essa a vida para nós desejada por Deus. Podemos ser muito mais do que isso. Podemos ser o oposto de tudo isso. E temos o dever de sê-lo.

Para ter uma vida melhor, mais interessante, mais nobre e mais rica, tenho de passar por cima de minhas fraquezas e más inclinações. Para isso, é indispensável a vigilância constante de pensamentos e de ações. Fazemos isso quando sacrificamos uma diversão em prol de um importante projeto profissional ou de estudos, ou quando damos atenção às brincadeiras de um filho pequeno quando, à noite, tudo o que queremos é descansar em paz e não ver desenhos animados.

Isso é realmente possivel? Sim, todo mundo faz um pouco disso todos os dias e só assim conseguem viver bem. Todo homem bem sucedido, seja ele um empresário, político, intelectual ou mesmo um bom pai de família só tem êxito po ter uma longa lista de sacrifícios feita para atingir suas metas. Felicidade requer mortificação e autossuperação.
Para encerrar, queria ler aqui as seguintes passagens de Caminho, de São Josemaría Escrivá:

“Essa frase feliz, a piada que não te escapou da boca, o sorriso amável para quem te incomoda, aquele silêncio ante a acusação injusta, a tua conversa afável com os maçantes e os inoportunos, o não dar importância cada dia a um pormenor ou outro, aborrecido e impertinente, das pessoas que convivem contigo… Isto, com perseverança, é que é sólida mortificação interior.” Ponto 173.

“Não digas: essa pessoa me aborrece. – Pensa: essa pessoa me santifica.2 Ponto 174.

“Eu te vou dizer quais são os tesouros do homem na terra, para que não os desperdices: fome, sede, calor, frio, dor, desonra, pobreza, solidão, traição, calúnia, cárcere…”. Ponto 194.

“Estes são os saborosos frutos da alma mortificada: compreensão e transigência para as misérias alheias; intransigência para as próprias.”. Ponto 198.

“Começar é de todos; perseverar, de santos.

Que a tua perseverança não seja conseqüência cega do primeiro impulso, fruto da inércia; que seja uma perseverança refletida.” Ponto 983.

“O desalento é inimigo da tua perseverança. – Se não lutas contra o desalento, chegarás ao pessimismo, primeiro, e à tibieza, depois. – Sê otimista.”. Ponto 988.

““Passou-me o entusiasmo”, escreveste-me.

– Tu não deves trabalhar por entusiasmo, mas por Amor; com consciência do dever, que é abnegação.”. Ponto 994.

Algumas perguntas foram feitas, mas não me recordo bem delas.

Muito obrigado a todos!

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Sobre Fábio V. Barreto

Católico, aprendiz de escritor, ávido por conhecimento, e outras coisas mais.
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