Um Estudioso Suplica a Deus

Senhor, Deus-Pai Todo-Poderoso, criador do Céu e da Terra,Senhor Jesus Cristo, Deus de Deus, Luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, consubstancial ao Pai; Espírito Santo, senhor que dá a vida e procede do pai e do filho, e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado; que posso, no silêncio deste dia que se encerra, pedir a vós que seja reto e de bom proveito não apenas para mim mas também para os demais que me cercam? O de costume já pedi à exaustão e Vós tendes sido de uma generosidade sem par para com este vosso pobre servo. Revolvendo minhas outras preocupações, relembro duma que muito me consterna, que é o atual estado da cultura brasileira, e por isso Vos suplico o seguinte:

Que as universidades brasileiras se afastem das tendências de se converterem em centros de propaganda político-ideológica assim como de se reduzirem a escolas de qualificação profissional e retomem seu papel original de propagadoras e criadoras da alta cultura;

Que nossos departamentos de humanidades sejam cada vez menos contaminados pelas disputas ideológicas e cada vez mais dedicados ao ensino, à pesquisa e à atividades de extensão sérios em suas áreas competentes;

Que nossas facudades de Direito, outrora um dos principais espaços de criação e divulgação da alta cultura nacional e da formação de lideranças, recuperem esta honrosa posição, voltando a ser verdadeiras escolas de juristas e pensadores, não se limitando à simples habilitação técnica de operadores do Direito e, especialmente, de preparação para concursos públicos;

Que nossos estudiosos, acadêmicos ou não, se afastem, decididamente do provincianismo tão forte na sociedade brasileira e mantenham frequentes contatos com seus homólogos nas Américas, na Europa, na Ásia e na África. Que entendam que a poliglotia é indispensável para uma vida de estudos, e não um luxo ou um estorvo;

Que quem queira dedicar-se ao saber e ao aperfeiçoamento do espírito encontre no futuro menos dificuldades do que no presente, quando mil e uma futilidades concorrem para dispersar as atenções do estudioso;

Que os grandes nomes da filosofia brasileira – Miguel Reale, Mário Ferreira dos Santos, Olavo de Carvalho, Farias Brito, Tarcísio Padilha, dentre outros – sejam estudados com seriedade e não esnobados ou alvo de disputas apaixonadas;

Que a filosofia portuguesa – especialmente a dos Conimbricenses e a do ciclo que vai de Leonardo Coimbra, Álvaro Ribeiro, José Marinho, Orlando Vitorino até Pinharanda Gomes e Miguel Bruno Duarte – seja divulgada e conhecida em todo o Brasil. Que nenhum letrado brasileiro diga que Portugal nunca produziu filosofia;

Que a filosofia espanhola – nomeadamente a da Escola de Salamanca e as de Ortega y Gasset e Julián Marías – tenham o mesmo destino desejado acima para a filosofia lusa;

Que nossos meios letrados deem mais atenção aos livros de pensadores e pesquisadores como Ludwig von Mises, Friedrich Hayek, Eric Voegelin, Russel Kirk, Roger Scruton, Pío Moa, José Pedro Galvão de Sousa, Mendo Castro Henriques, Barão de Varnhagen, Irving Babbit, Michael Oakeshott, Johannes Althusius, Bill Gertz, David Horowitz, Stéphanne Courtois, Alain Besançon, Leo Strauss, Xavier Zubiri, Viktor Frankl, Confúcio, dentre outros;

Que a riquíssima tradição cultural cristã retorne decididamente a cultura brasileira, marcando-a com todo o seu poder vivificador. Que ninguém pense que não se pode ser um erudito e um cristão autêntico ao mesmo tempo;

Que nossos novos estudiosos se interessem decididamente por conhecer a história e a formação sócio-cultural brasileiras, pois quando não se conhecem a si mesmo nem a própria história, nem a sociedade subsiste de forma sã nem empreendimentos nacionais obtêm êxito;

Que as obras filosóficas de Platão e Aristóteles sejam todas traduzidas para o português diretamente do grego por profissionais de excelência, para que sejam estudadas a fundo, assim como a de seus melhores comentadores;
Que a literatura brasileira se revigore. Que as melhores obras da literatura universal tenham ótimas edições brasileiras e que a literatura seja vista como meio indispensável para a formação e educação do intelecto, e não apenas como um entretenimento erudito;

Que a língua portuguesa seja uma língua de cultura a nível internacional, se não parelha ao inglês ao menos próxima do francês e do espanhol, ao invés de um idioma localizado, útil apenas a uns poucos países;

Muito mais coisas eu gostaria de pedir-Vos, Senhor, sobre nossa cultura, mas minha oração já está demasiado extensa. Por isto reservo aqui um pequeno espaço para pedir algo para mim: que Vós me conceda força e entendimento suficientes para cooperar com esta grande empreitada. Amém!

Fábio V. Barreto

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Sobre Fábio V. Barreto

Católico, aprendiz de escritor, ávido por conhecimento, e outras coisas mais.
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