Movie Review: “‘Non'”, ou a Vã Glória de Mandar”, de Manoel de Oliveira

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Recentemente falecido, o cineasta português Manoel de Oliveira deixou filmes marcantes na história do cinema como “Aniki-Bobó”, “Douro, Faina Fluvial”, “Singularidades de Uma Rapariga Loira”, “O Estranho Caso de Angélica, entre outras. Até onde conheço de sua imensa obra, porém, nenhuma se compara a “’Non’, Ou a Vã Glória de Mandar” (1990).

Uma guarnição portuguesa na África desloca-se em meio ao interior rústico do país durante a Guerra Colonial. Eis que então o Alferes Cabrita (vivido pelo ator Luís Miguel Cintra) entabula uma conversa sobre a guerra e as atualidades com os demais colegas de farda, que demonstram interesse pelo assunto. Eis então que inicia a percorrer a História de Portugal começando por Viriato e sua ferrenha resistência ao domínio romano. Dali prosseguem ao longo da película por vários momentos marcantes da história do país, como o reinado de D. Afonso Henriques, a união com Castela e a batalha de Alcácer Quibir, já no reinado de D. Sebastião de Aviz.

Alternam-se a narrativa dos fatos históricos com a representação dos mesmos e ainda a interpretação dos mesmos, sempre liderada pelo Alferes e narrada num tom entre o melancólico e o profético. Não falta ali um momento para o onírico, quando se referem à “Ilha do Amor” de Camões, com suas ninfas e cupidos.

O filme é antes uma reflexão sobre a História de Portugal do que propriamente documentário histórico narrado convencionalmente. É um modo bastante particular e ao mesmo tempo vigoroso e apaixonante de ver alguns fatos da história portuguesa, no que se assemelha, até certo ponto, a um outro grande filme, o russo “Arca Russa”, de Alexander Sokurov. A reconstituição histórica recorre a grandes cenários e figurinos, tudo feito com muito cuidado e esmero.

Marcante é a parte relativa a Alcácer Quibir: D. Sebastião é retratado como um rei guerreiro irascível e cuja coragem se ombreava à sua imprudência, teimosia e falta de esratégia militar. Só aceitaria uma vitória conseguida no calor da batalha, em ataques frontais. Desprezava os conselhos dos mais prudentes que o advertiam contra essa empreitada e mesmo os que articulavam alianças com outros monarcas para vencer Suleiman, o soberano marroquino, tachando-os de covardes. Isso foi a chve de sua derrota e da derrocada do país naquele triste dia, derrocada esta da qual não se sabe ao certo quando o país veio a se recuperar, ou se realmente o fez ainda.

A certa altura a guarnição tem de parar sua patrulha, já que milicianos anticolonialistas os atacam. O tiroteio entre os dois grupos é feroz. Um africano é severamente ferido na perna, mas nosso Alferes também é alvejado. No hospital de campanha, no meio de mutilados, moribundos e feridos, o Alferes Cabrita delira em febre, sonhando com um D. Sebastião ainda mais messiânico e um Alferes ainda mais angustiado a tentar entender o destino e a identidade portugueses. Mas ele se despede deste mundo sem esta resposta. Em seu registro de óbito está a data: 25 de Abril de 1974. Mais simbólico, impossível.

Um filme que reflete sobre a identidade e a trajetória de um povo, “’Non’” é uma produção digna de figurar entre os grandes filmes do cinema europeu e um presente a todos os que se interessam por História.

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Sobre Fábio V. Barreto

Católico, aprendiz de escritor, ávido por conhecimento, e outras coisas mais.
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