Book Review. “As Ideias Conservadoras”, de João Pereira Coutinho

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Há já alguns anos, surgiu no Brasil um interesse pelo conservadorismo, entendido em seus aspectos político, social-moral e religioso. Embora tal interesse fosse ( e ainda é) crescente, as fontes de informação sobre o conservadorismo eram demasiado escassas, quase que restritas a debates virtuais e alguns artigos da mídia nacional e estrangeira. Faltava aos interessados no tema algo como um guia básico sobre o conservadorismo. E eis que ele aparece em As Ideias Conservadoras, da pena do jornalista e cientista político português João Pereira Coutinho.
Tendo como subtítulo “Explicadas a Revolucionários e Reacionários”, o pequeno volume de Coutinho constitui-se duma verdadeira introdução ao pensamento conservador. Mas que tipo de conservadorismo se trata? De um simples apologista do status quo? De um moralista inveterado? Nada disso. O conservadorismo ali exposto e esposado por Coutinho está firmemente alicerçado no conservadorismo britânico: Oakeshott, John Kekes e, especialmente, Edmund Burke. O grande político e pensador irlandês não só ilustra a capa do livro como está presente em quase toda a obra, animando as teses apresentadas. Já na introdução, o autor escreve:

“Como vantagem, o conservadorismo britãnico, globalimente considerado, parece ter sido capaz de reconhecer ao longo da sua história como espírito revolucionário não era um elemento exclusivo do ‘jacobinismo’ nas suas múltiplas encarnações. Olhando para o outro lado do Canal da Mancha, era possível encontrar pensadores à direita, e mesmo pensadores conservadores de direita, que repetiam e procuravam, com particular estridência, os seus personalíssimos ottantott. A principal diferença entre esses pensadores, e tal como acertadamente defende Noël O’Sullivan, residia em saber se esse estado de perfeição se situava no passado (como para o referido Maistre ou para o seu contemporâneo Louis de Bonald) ou se seria antes uma promessa messiânica para o futuro (como nos nacionalismos de Maurice Barrès ou Charles Maurras). ‘Em qualquer dos casos’, conclui O’Sullivan, ‘é o elemento utópico introduzido na ideologia conservadora pela procura de limites completamente objetivos sobre a vontade humana que explica a completa inabilidade da extrema direita para acomodar o mundo moderno.
“O conservadorismo britânico sempre tendeu a olhar com higiênica distância para essas violentas condenações do pensamento revolucionário e utópico que passavam, paradoxalmente, pela imposição de novas e revolucionárias utopias. Terá sido essa distância que, ainda segundo O’Sullivan, permitu ao conservadorismo britânico um apreciável grau de aceitação e de coexistência pacífica com a nova sociedade emergente das revoluções francesa e industrial. Que isso nem sempre tenha sido atingido pelos seus primos ideológicos da Europa continental, eis uma fatalidade que a História do século XX se encarregaria de elevar a trágicas alturas.”

E também:

“Burke é importante para a discussão conservadora, não apenas pela sua primazia cronológica, mas pela sua sobrevivência temporal. Ao partir de um acontecimento revolucionário (e traumático) na história moderna, ele foi capaz de legar alguns princípios gerais que, para usar a conhecida formulação conservadora, sobreviveram aos ‘testes do tempo’. E, sobrevivendo, oferecem valiosos ensinamentos para o pensamento e para a ação política presentes.”

A partir daí Coutinho apresenta os conceitos conservadores que pretende analisar ao longo da obra: “imperfeição humana”, “pluralismo”, “tradição”, “reforma” e “sociedade comercial”. Mas o fará após analisar o caráter do conservadorismo. Afinal, ele é uma ideologia ou não?
Coutinho observa a aversão generalizada dos conservadores anglo-saxões ao termo “ideologia”, por o considerarem demasiado vinculado à tradição marxista – e, acrescento eu, à iluminista francesa também.
Baseado em Samuel Huntington, Coutinho mostra que o conservadorismo político repele o pensamento utópico, venha ele de revolucionários ou de reacionários. Estes últimos são considerados pelo autor como caricaturas de conservadores e revolucionários ao avesso, uma vez que sustentam suas utopias baseadas no passado (sempre idealizado, diga-se de passagem), sem atenção ao que há de bom no presente, enquanto que os revolucionários (iluministas, marxistas, nazifascistas, anarquistas) projetam suas utopias para um futuro a ser construído por eles mesmos. Por isso, Coutinho conclui que, mesmo sem possuir um “ideal substantivo” próprio e nem defender uma “utopia conservadora” fruto da ação política, o conservadorismo é uma ideologia reativa, que entra em cena quando os fundamentos da sociedade se encontram sob ameaça.
Outro conceito-chave do conservadorismo é o da imperfeição humana: a complexidade do homem e dos fenômenos sociais é de tal monta que não se nos permitam compreendê-los de maneira absoluta e perfeita. Assim sendo, não faz sentido advogar por projetos de mudança radicais e abstratos, principalmente quando empreendidos por um punhado de intelectuais alheios às realidades práticas da vida política.
Observe-se que ao abordar a imperfeição humana – atitude também chamada de pessimismo antropológico – o conservador não se opõe à possibilidade de aprimoramento das condições materiais humanas. A crítica conservadora não é antirracional, mas sim antirracionalista; uma crítica a uma atitude irracional que afirma a capacidade da razão de moldar, por si mesma apenas, a sociedade de uma forma entendida como radical e perfeita. A Revolução Francesa é tema rico para o aprofundamento desta ideia.
E então, como ficamos? Coutinho, amparado em Burke, James Mackintosh e outros, declara que, em virtude disso, o conservador deverá agir com humildade e prudência, recusando os projetos políticos utópicos. Uma verdadeira política conservadora buscará uma via média entre os extremos, avançando racionalmente, com um conhecimento prático que leva em conta o inegável peso das tradições e das circunstâncias.
E reconhecer a importância delas é absolutamente vital para o agente político conservador. São elas que determinam o tipo de resposta a ser apresentado frente a uma ameaça.
Aqui já podemos entrar neste tema caríssimo aos conservadores: o dos testes do tempo. O autor assim responde aos que indagam sobre o apego conservador às tradições sobreviventes aos testes do tempo:

“[Os conservadores] valorizam as tradições, pois estas, justamente, sobreviveram aos “testes do tempo”. E essa sobrevivência começa a revelar a qualidade e a validade dessas mesmas tradições, o que recomenda a sua proteção presente. A atitude do conservador será assim distinta da atitude que Burke detectou nos revolucionários franceses, para quem a duração das tradições e instituições não era motivo suficiente para preservá-las. ‘A duração não é valiosa para aqueles que pensam que pouco ou nada foi feito antes do seu tempo’. Pelo contrário: a antiguidade dessas tradições e instituições era um motivo suplementar para que elas fossem inapelavelmente destruidas. Como se essa antiguidade fosse expressão de um defeito intrínseco.”

Obviamente o conservador não tem porque querer conservar tudo, apenas os arranjos tradicionais que melhoram a vida humana. Para que os benefícios dos mesmos se estendam a um número cada vez maior de pessoas, ele os preservará, buscará retirar deles seus ensinamentos fundamentais e, se e quando constatar a necessidade de reformas, ele as fará, com prudência e em atenção à situação concreta com que lida. As tradições fornecem ao indivíduo a gramática básica da “grande conversa da humanidade” e não há ninguém, mesmo dentre os ditos mais rebeldes e “alternativos”, que não esteja inserido numa tradição. As tradições também são o ponto de partida para todo o reformismo, do mais prudente ao mais irracional. Conservar e reformar formam uma dialética inescapável.
Coutinho também debruça-se aqui sobre a atitude conservadora diante da sociedade comercial e mostra a perfeita compatibilidade dela com o capitalismo.
Para todos aqueles que se veem como conservadores, o ensaio do escritor português é uma autêntica introdução ao tema e uma ótima fonte para ajudar a sistematizar suas ideias. Para aqueles que, por qualquer motivo, se opõem ao conservadorismo, uma oportunidade para entendê-lo melhor e repensar suas posições. Para aqueles ávidos por novas ideias no cenário cultural brasileiro, é uma lufada de ar fresco.

Fábio V. Barreto

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Sobre Fábio V. Barreto

Católico, aprendiz de escritor, ávido por conhecimento, e outras coisas mais.
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