Vá com Deus, Janer Cristaldo!

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Falece Janer Cristaldo

Pode soar algo estranho escrever sobre a morte de alguém que se admirou, depois virou um desafeto para depois ser pouco mais do que uma recordação do passado. Talvez o seja mesmo. Mesmo assim, pelo passado e por quem sou e quero ser, me sinto compelido a escrever estas linhas.

Soube ontem à noite, checando minha timeline do Facebook, que o escritor, tradutor e ex-jornalista gaúcho Janer Cristaldo faleceu na manhã do mesmo dia, em São Paulo. Há tempos ele lutava contra um câncer.

Tomei conhecimento dele há coisa de doze anos atrás, ao ler O Jardim das Aflições, de Olavo de Carvalho. No final do livro o filósofo comenta o controle do Estado moderno sobre seus cidadãos, não importando se ele tem uma economia mais liberal ou social-democrata. Como exemplo deste último, cita a Suécia e recomenda, numa nota de rodapé, a leitura da “imprescindível reportagem de Janer Cristaldo, ‘O Paraíso Sexual-Democrata’”. O tema, o inusitado título e o exótico nome do autor me chamaram a atenção, e pus-me a procurar a obra, que só encontrei alguns anos depois, num sebo virtual, por indicação do próprio Cristaldo. Antes disso, descobri textos seus espalhados em sites até descobrir seu blog, que muito me alegrou na altura, bem como quando o descobri como colunista do então recém criado jornal eletrônico Mídia Sem Máscara.

Era por volta de 2003, não me recordo com exatidão. Dono de um estilo de escrita belo, perspicaz e envolvente, Cristaldo logo me despertou interesse. Mostrava cultura e um espírito analítico ferino. Conseguia ser culto e leve, inteligente e divertido. O componente sarcástico também me fascinava, mas nele eu veria também coisas nada boas e que auxiliaram em minha ruptura com ele.

Lendo seu blog descobri que ele era ateu. Aquilo me entristeceu a princípio, mas me pareceu algo que se poderia levar numa boa, já que não sou intransigente com quem não compartilha de todas as minhas posições. Mas ele começou a escrever textos cada vez mais agressivos ao cristianismo e em especial à Igreja Católica. Mesmo só tendo eu “retornado” à Santa Madre Igreja em meados de 2007, isso me incomodava bastante, até porque via que muitos de seus comentários eram infundados, baseados em experiências superficiais ou leituras mal-feitas e às vezes puramente ofensivos. Isso levava-me a um afastamento pendular dele, por volta de 2005 e 2006: ora o acompanhava, ora o largava, ora voltava a acompanhá-lo.

Em parte, isso se devia ao meu estado de espírito naquela época. Na altura eu reconhecia a importância da religião, mas ao mesmo tempo era basicamente um não-praticante. Política, cultura e viagens eram os meus maiores interesses e sobre isso, julgava eu, ele escrevia muito bem e era solícito quando perguntado a respeito nas redes sociais. Foram várias indicações de livros e de roteiros turísticos, uns bons, outros menos bons. Mas, até onde minha memória alcança, as recordações daqueles dias foram boas. Devo dizer que quase o encontrei em Madri em 2005, quando morava na Espanha, mas não pude me deslocar de Salamanca até a capital espanhola quando ele por lá estava.

Entretanto, com o tempo eu mudei, li mais, estudei mais e comecei a vê-lo com outros olhos. Ele começou a não me parecer tão grande assim (cheguei a julgá-lo como um grande talento injustamente ignorado). As falhas se me mostravam cada vez mais claras. Ele me parecia como que “sem limite”, atacando pessoas e coisas maiores do que ele e que me eram muito caras. Acresce-se a isto o fato de já no começo de 2007 eu me voltar cada vez mais para a Igreja Católica e ter cada vez mais interesse no Cristianismo. Isso chocava-se com o ateísmo ferrenho e militante (ele negava tal rótulo, mas qual a diferença substancial do que ele fazia para o que fazem os ditos “neoateus”?) de Cristaldo. Comecei por lê-lo cada vez menos e fazer-lhe críticas, algumas duras. Tivemos altercações. Lá por Agosto deste mesmo ano, rompi com ele.

Aquilo foi forte para mim. Tinha-o em alta estima e levei-o à serio por um bom tempo e agora via que tinha me enganado redondamente. Ele era uma figura bem menor do que imaginei. Toquei minha vida adiante, buscando sempre melhorar e apagar qualquer erro dele que tivesse porventura absorvido.

Deixei de o ler para o superar. Só sabia do que escrevia quando calhava de topar com algum texto seu nalgum grupo virtual. Não faltaram críticas da minha parte aos erros que cometia. Mas com o tempo serenei e ele acabou por tornar-se pouco mais do que uma recordação para mim.

Há dois anos ele solicitou-me amizade no Facebook. A princípio estranhei, mas me pareceu que ele esquecera-se das desavenças e lembrava-se de mim apenas das boas partes. Aceitei. Pouquíssimo interagi com ele, mas por essa ferramenta soube que ele sofria de câncer há tempos.

Lutou bastante e por muito tempo, teve sequelas, ficou impossibilitado de viajar (deve ter sido terrível para ele), até que, na manhã da última segunda-feira, quando o país acordava da ressaca eleitoral, ele nos deixava definitivamente rumo ao outro mundo, indo prestar contas de seus atos ao Pai que ele tanto insultara e combatera.

Não vou negar o mal que ele fez, pois ele mesmo o alardeava sem muita cerimônia. Não vou cair na pieguice brasileira de adornar com as virtudes mais sublimes e dar até ares de santidade a alguém pelo fato de ele falecer. Mas não posso negar que houve coisas boas naquela época e que mesmo a decepção e as contrariedades me ajudaram a crescer e a me fortalecer. Foram boas as conversas virtuais sobre livros, viagens, atualidades. E isso é algo que faz falta.

Por isso, em razão dessa época e de meu dever e minha vontade como cristão de colaborar para a salvação das almas, peço a Deus que tenha piedade da alma de Janer Cristaldo. Que o Senhor Justíssimo e Amabilíssimo lhe perdoe os pecados e o conduza à morada eterna, onde também espero habitar algum dia. Se isso acontecer, será um prazer entabular aquelas conversas pela eternidade afora.

Vá com Deus, Janer Cristaldo!

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Sobre Fábio V. Barreto

Católico, aprendiz de escritor, ávido por conhecimento, e outras coisas mais.
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9 respostas para Vá com Deus, Janer Cristaldo!

  1. Rolando disse:

    Uma pena não haver vida após a morte, pois gostaria de ler a resposta que o Janer lhe daria a esse carolismo tão pueril.

  2. Samuel disse:

    Só aceito ir se for à Valhalla, ou Olimpo, ou estar com as 72 virgens. Teu altíssimo específico enfada e consegue ser ainda mais desconexo que os outros
    Mencionas erros de Janer, mas não diz os quais. A verdade é que Janer humilhava tuas crenças infantis. E quando confrontado com isso, só lhe serve as ameaças de julgamento perante teu amigo imaginário. É um insulto à memória de Janer mandá-lo a um lugar a qual ele refutou tão brilhantemente

    • Se não quer o Céu, não há problema. O Abismo existe para gente assim. Ao que me consta, lá você poderá inchar o peito com esse orgulho cristaldete sem ser contestado.
      O erros dele foram expostos e reexpostos quando ele tinha certa visibilidade, até 2007, a mais tardar 2008 (aquela de chamar Sto. Agostinho de cúmplice da Inquisição, tendo o santo morrido 800 anos antes do estabelecimento do Santo Ofício ainda está fresca na minha memória). A partir daí só os mais indigentes persistiram. No mais o post não era uma análise sobre sua obra (ele não tem estatura suficiente para merecer isso), mas apenas uma homenagem a um sujeito que teve importância no passado e que necessita de muita oração, apesar de ele ter REFUGADO ( e não refutado, tá?) tudo isso tanto em sua vida.

  3. Gil Rikardo disse:

    Sou grande admirador da obra do Janer, tanto que continuarei a republicá-la em meu blog no afã de mantê-la circulando pela rede. E esse papo de julgar as pessoas pelo viés da religião tá fora de moda.

    • Não sei se “julgar as pessoas pelo viés da religião” (algo que o Janer fazia com frequência, aliás) está fora de moda. Sei que ele tem muitos pontos criticáveis fora no que tange o religioso e que eu nunca liguei muito mesmo para modas.

  4. Caramba, ontem fez um ano do falecimento do Janer! Ô tempo para correr depressa!

  5. marco antonio disse:

    Texto interessante. Me falta cultura para analisa-lo com profundidade mas a cumplicidade de Santo Agostinho poderia ser por contribuição ideológica. A sua angústia pela salvação da alma de Janer é tocante mas inútil visto que, com a morte, sua condição eterna se tornou imutável.

    • Sei que com a morte nosso destino final é imodificável mas, tendo em vista a pessoa de que se trata, o destino final em questão é de se temer. Por isso, seguindo o que ensina a Santa Madre Igreja, orei e pedi muitas orações por ele.

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