Movie Review: “Sonhos”, de Akira Kurosawa

Pôster original de "Sonhos".

Pôster original de “Sonhos”.

Agora vou falar daquele que foi talvez o segundo filme de Akira Kurosawa que assisti. Tendo aplaudido “Trono Manchado de Sangue”, criei enorme interesse na obra deste diretor e procurei por outras obras. Até onde me lembre, o filme seguinte de sua produção que assisti já era colorido e com uma estrutura totalmente diferente de qualquer filme que eu já havia visto até então. Refiro-me a “Sonhos”.

“Sonhos” é um filme sui generis: não é um filme, mas sim oito pequenos filmes numa só película; não tem uma história, mas oito histórias diferentes que, não obstante isto, dialogam entre si e conservam certa unidade de estilo e algumas partilham de temas em comuns com outras. Eu diria que foi a primeira vez que vi um filme em formato de livro de contos.

O primeiro, “A raposa”, fala de uma criança que é advertida pela mãe que não deveria ir à floresta quando há chuva e sol, pois é a época do acasalamento das raposas (curiosidade: aqui no Ceará sempre ouvi a mesma história, desde pequeno. Que mundo é este!), e elas não gostam de serem observadas. Mas ele desobedece e observa as raposas, atrás de uma árvore. As raposas, personificadas por atores com alegorias muito bem feitas, reparam que estão a ser espiadas. Ao retornar para casa sua mãe não o deixa entrar, pois uma raposa foi queixar-se dele à ela e a mãe lhe entrega um punhal, dizendo que como ele havia contrariado a raposa ele deveria matar-se, mas ela sugere que é possível remediar a situação, por meio de um difícil perdão das raposas. O menino segue em direção ao campo, cabisbaixo, e este fragmento encerra-se com um magnífico campo florido percorrido pelo garoto.

Na segunda, “O Jardim dos Pessegueiros”, o irmão caçula de uma família, ao servir chá para as irmãs, vê em sua casa uma moça que foge. Ao correr atrás dela, percebe que ela é uma boneca e se depara com os pessegueiros da sua casa totalmente cortados, restando só tocos. Os espíritos dos pessegueiros, personificados em figuras humanas ricamente vestidas e adornadas com trajes tradicionais japoneses ao ponto de parecerem mais com divindades xintoístas do que com espíritos das árvores cortadas, surgem para ele e, em uma dança melancólica, dizem que as bonecas são colocadas para enfeitar e festejar a florada dos pessegueiros, mas como eles não mais existem naquela casa, a presença das bonecas tornava-se sem sentido. Eles estão nitidamente armagurados e riem-se do choro do garoto pelos pessegueiros, mas este explica que chora porque não pode mais desfrutar da beleza deles. Impressionados com tal pureza de intenção, eles executam uma dança ritual ao som suavíssimo de uma canção tradicional nipônica e mostram a beleza dos pessegueiros mais uma vez ao menino. É um espetáculo visual quase indescritível, mas fugaz, pois os tocos voltam a mostrar-se. É a realidade que acaba por se impor. Nas duas primeiras histórias, a cultura tradicional japonesa tem presença marcante.

Na quarta narrativa, “O Túnel”, ao entrar em um túnel o capitão de um exército é surpreendido por um cão negro e hostil, que ladra para ele. Atravessa então o túnel em curtos passos. Na saída ouve alguém caminhar e depara com um dos seus soldados morto em combate, que pensa não estar morto. A morte do soldado é realçada pela cor azul de sua pela e pelo mal estado de seu corpo, o que evidenciam estar-se diante de um fantasma. Há aí uma conversa algo tensa, entre um soldado fiel até à morte ao seu exército e ao seu país e o capitão que se recorda da tragédia da Segunda Guerra e se envergonha de ter sobrevivido. Mais tarde todo o pelotão comandado outrora pelo capitão aparece e ele lhes dá a triste notícia de que haviam sido todos mortos em batalha. Eles retiram-se, honrados pelo capitão, mas o cão retorna para atormentá-lo.

No sétimo fragmento, um viajante fatigado encontra um ogro, na verdade um homem que muito sofria com a catástrofe nuclear que se abatera (por sua cidade? Pelo Japão? Pelo Mundo?) que lamenta ter sido um homem ganancioso e, como muitos, transformou a terra em um lastimável depósito de resíduos venenosos. Ele tem chifres e deformações, como quase tudo o que há ali. Ele sente dores terríveis e avisa que será devorado logo por ogros mais fortes. O viajante se compadece de sua dor, mas ele o hostiliza e o manda embora, o que ele faz muito prontamente. Essa história é uma das quais o trauma da bomba nuclear se faz presente.

No último “conto”, “Povoado dos Moinhos”, um viajante (interpretado pelo mesmo ator de vários outros) chega à um lugarejo conhecido por muitos como Povoado dos Moinhos. Lá não existe energia elétrica, automóveis e tampouco urbanização. Ele aprecia a hospitalidade e a gentileza dos nativos e se põe a indagar um idoso a respeito deste modo de vida que se supunha extinto ou quase no Japão moderno.O ancião então retruca que os inventos tecnológicos tornam as pessoas infelizes e vazias e que o importante para se ter uma boa vida é ser puro e ter água limpa. O filme termina com uma espécie de procissão local, num espetáculo de cores e imagens.

Obviamente não relatei aqui cada uma das histórias, pois isso tiraria boa parte do prazer do leitor em conferir esta obra-prima. “Sonhos” não só nos mostra e faz pensar sobre diferentes situações da vida, mas nos surpreende com as riquezas do cinema japonês e em como situações simples e ao mesmo tempo tão diversas podem ser tão marcantes. Sua fotografia impecável, com imagens fortes, belas e sublimes da natureza, das tradições japonesas, da guerra e do cotidiano é um de seus pontos fortes. É um espetáculo para os olhos e para o coração.

Fábio V. Barreto

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Sobre Fábio V. Barreto

Católico, aprendiz de escritor, ávido por conhecimento, e outras coisas mais.
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