Movie Review: “Trono Manchado de Sangue”, de Akira Kurosawa

Poster original de "Trono Manchado de Sangue".

Poster original de “Trono Manchado de Sangue”.

Há uns quatro anos e meio, mais ou menos, eu estava numa locadora de DVDs (sim, ainda vou a estes lugares) em busca de um bom filme de arte, gênero que estava me despertando imenso interesse e pelo qual ainda tenho afinidades desde então, quando me deparei com “Trono Manchado de Sangue”, do diretor japonês Akira Kurosawa. Já conhecia sua fama mas nada havia visto dele ainda. Decidi dar-lhe um crédito e levei o filme para ver, naquela noite de sábado.

Dificilmente eu poderia ter feito uma escolha mais feliz. Este filme, antes mesmo de terminar, tornou-se um dos meus favoritos e me despertou para a maravilhosa obra cinematográfica de Kurosawa. Não descansei enquanto não comprei este DVD, pois é para ser visto sempre.

O filme, um longa-metragem de 1957 e em preto-e-branco, é baseado na peça “Macabeth”, de Shakespeare, e tem como roteio o seguinte: em meio aos conflitos militares do Japão medieval, os generais Washizu (interpretado pelo ator Toshirô Mifune, talvez o favorito de Kurosawa) e Miki (vivido por Akira Kubo) são os comandantes do primeiro e do segundo castelo de um reino local mas que não é nominado no filme, cuja sede fica no Castelo das Teias de Aranha. Após defenderem seu senhor em batalha, eles estão retornando para casa quando, ao atravesar uma densa floresta em meio a uma tempestade, encontram um espírito assemelhado a uma mulher velha (figura aparentemente recorrente na ficção japonesa) que prediz o futuro de ambos. O misterioso espírito, que fia incessantemente numa roda sabe-se lá por que razão, diz que Washizu em breve assumirá o trono e que o filho de Miki, Yoshaki (Minoru Chiaki), será seu sucessor. A previsão afortunada para Washizu e infeliz para seu colega é recebido com ceticismo por ambos, que chegam a tentar enfrentar o dito espírito, quando ele desaparece, junto com a cabana onde estava e o seu tear.

Ao retornarem ao palácio de seu senhor, eles recebem a predita promoção, o que os deixa muito impressionados. Em casa, um tempo depois, Washizu comenta a predição com a esposa, Asaji ( interpretada pela atriz Isuzu Yamada). Ela acredita no que o espírito disse e incita o marido a agir quando o atual rei chega em seu castelo, para passar a noite, no sentido de garantir definitivamente o senhorio de Washizu, pois teme que o filho de Miki acabe por sobrepujá-lo. A princípio, Washizu não aceita tais considerações e resiste-lhes, mas cede ao plano assassino da esposa e mata o rei Tsuzuki e os guardas, como forma de proteção contra possíveis delatores.

Kunimaru, o filho do rei morto, jura vingança contra o assassino de seu pai e une-se a outros com o mesmo objetivo. Ele logo passa a suspeitar de Washizu e tenta convencer Miki da periculosidade deste, mas ele não acredita nas graves acusações que fazem contra seu amigo. Isso acabou por sair muito caro para Miki, pois Washizu, influenciado por sua mulher, já não confiava nele plenamente como antes, e assim ele se voltou contra seu antigo irmão de armas: Asaji diz estar grávida e pede que Washizu mate o filho de Miki para assegurar que seu herdeiro seja seu próprio filho.

Nesse ponto já se vê que o general Washizu entrou numa espiral alucinante de morte, traição e remorsos, agravada pela visão que chegou a ver a alma de seu antigo amigo Miki, já que matou.Washizu constrói sua soberania sobre o Castelo das Teias de Aranha sobre vários cadáveres e intrigas, o que já explica o título desta película.

Mas o mal um dia tem de prestar contas à justiça e eis que esse dia chega. Atormentado, Washizu corre ao bosque em busca do espírito que predisse sua sorte em busca de um novo auxílio. Ele aparece e diz que que Washizu será senhor do castelo enquanto o bosque que o cerca não se mover. Cheio de autoconfiança e com um brilho entre o maligno e o insano nos olhos, Washizu retorna ao castelo, ao mesmo tempo que o espírito se revela um demônio.

Washizu prepara-se para ser atacado por seus inimigos, apesar de estar tão confiante em sua superioridade. Até que um soldado em pânico avisa-lhe que o bosque vizinho ao castelo está se movendo. O senhorio resolve averiguar por conta própria e fica mortificado pelo que vê. Assistam ao filme para saber o truque.

O ex-general conclama seus soldados à luta mas eles fazem ouvidos moucos, até se voltarem em massa contra ele, desesperado, Washizu tenta reagir e fugir, mas morre pelas mãos de seus homens, trespassado por dezenas de flechas. O filme encerra com uma sutil canção já presente no início, falando de “um guerreiro forte no campo de batalha mas fraco diante de sua mulher” e com uma frase que, embora pareça óbvia, é muitas vezes olvidada: “ o caminho do mal é o caminho da perdição, e o seu rumo nunca muda”.

O filme vale cada um dos seus 110 minutos. A dramaticidade, a interpretação, o roteiro e as lições que dele se podem extrair fazem de “Trono Manchado de Sangue” um filme essencial.

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Sobre Fábio V. Barreto

Católico, aprendiz de escritor, ávido por conhecimento, e outras coisas mais.
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