Movie Review: The Soviet Story, de Edvins Snore

soviet

Assisti hoje à tarde ao filme-documentário The Soviet Story, do diretor letoniano Edvins Snore na universidade aqui perto de casa. Produzido em 2008, o filme provocou um grande impacto na platéia e também em mim mesmo, ao rever um tema tão sério de modo tão forte.
O filme iniciou com uma desconstrução de um mito bastante arraigado na mente de muitas pessoas: o de que o nazismo e o comunismo são ideologias totalmente opostas, sendo o nazismo sinônimo de tirania absoluta e sedenta de sangue, ao passo que o comunismo era a favor da igualdade, do fim da pobreza, da exploração que, às vezes, em certo grau, descambava num autoritarismo.
Nada mais longe da verdade: a profunda relação filosófica entre as duas ideologias e os elogios mútuos que os próceres dos dois lados fizeram um ao outro nos anos 30 do século XX é exposta ali sem reservas, mostrando até como os cartazes de propaganda política dos regimes da Alemanha nazista e da União Soviética eram praticamente idênticos, mudando pouco mais do que a suástica e a foice com o martelo. E a mesma similaridade permeia o Pacto Ribbentropp-Molotov, além de vários acordos diplomáticos firmados entre a Alemanha nazista e a União Soviética. Por fim, cabe mencionar os elogios tecidos por Hitler a Lenin e a Stalin, e como Stalin via com bons olhos o ditador alemão, considerando o nazismo como “o navio quebra-gelo da Revolução”.
Mas o mais chocante ainda não foi nada disso. Foram as declarações explícitas dos proceres marxistas em favor do genocídio como arma legítima para uso na luta política. A URSS intentava (e levou isso à prática) o extermínio de segmentos inteiros da sociedade para a edificação do “novo homem socialista”. Nisso o nazismo só se diferenciava no critério: os nacional-socialistas alemães queriam exterminar raças inteiras, ao passo que os socialistas internacionalistas soviéticos queriam fazer o mesmo em relação à classes sociais tidas como inimigas (nobreza, burguesia, classe média, clero). Foram cenas fortes dos massacres e das torturas perpretados pelo regime soviético. A tragédia conhecida como Holodomor foi muito bem explorada, recebendo bastante espaço na película, com bastante fotos, filmagens e depoimentos de especialistas e de algumas testemunhas que conseguiram sobreviver ao terror da fome na Ucrânia nos anos de 1932 e 1933.
Também foi mostrado o terrível crime de Katyn, quando a URSS executou milhares de prisioneiros nesta localidade polonesa, na altura da Segunda Guerra Mundial. Além disso, outras atrocidades foram expostas com os devidos detalhes repugnantes.
Honestamente, enquanto via aquilo, recordava-me do ano 2000, quando li O Livro Negro do Comunismo. Um grande livro, uma obra fundamental sobre a história do século XX. Mas muito pesada, com uma descrição tão forte dos massacres e da opressão que muitas vezes eu parei a leitura por não aguentar tanto cotejo de crueldade. Ainda tenho sérias dificuldades em entender – e, principalmente, aceitar – que o homem, ser criado à imagem e semelhança do Criador, seja capaz de tamanha atrocidade contra seus semelhantes.
Chamou-me bastante atenção também os depoimentos de Vladmir Bukovsky, Nicolas Werth, George Watson, Boris Sokolov, Emma Korpa, Rita Papina, entre muitos outros. Relataram o terror do regime soviético muito bem e com muita propriedade, uns por tê-lo pesquisado muito bem, outros porque o testemunharam. Nisso destaco as intervenções das duas senhoras supracitadas: ambas foram sobreviventes da trágédia dos Gulags e da repressão sistemática que o Estado sovietico promoveu contra quem fosse considerado, por qualquer motivo que fosse, um perigo para a “pátria do socialismo”. Como não se comover com a dor com que elas rememoravam e relatavam o ocorrido? Fico pensando no que passa na cabeça e na alma de pessoas como elas ao relatarem o que viveram.
Mais estarrecedor é ver que, na Rússia, o assunto é tabu. O presidente Putin considerou a queda da URSS como “a maior catástrofe geopolítica do século XX”, fechou os Arquivos de Moscou para pesquisas e não quer ouvir falar em críticas àquele período. Além disso, segundo o filme, o aparecimento de grupos radicais de cariz neonazista na Rússia não é combatido pelo governo e chega mesmo a ser acobertado pelos meios de comunicação. Todavia a Europa, que com tanta energia condenou e condena o hitlerismo, insiste em não estender o mesmo tratamento ao comunismo. A razão, segundo Nicolas Werth, é de política econômica: a Rússia é um grande fornecedor de petróleo e gás natural para a Europa, razão pela qual o velho continente não quer problemas com o Kremlin. Mas que isso é indesculpável, é.
Mais se poderia dizer sobre esse documentário, mas prefiro recomendar agora que o assistam o quanto ants e que o divulguem. É muito bem produzido e é um relato histórico de grande valor.
No debate que se seguiu, as opiniões e teses levantadas foram muito boas, mesmo com a intervenção de alguns socialistas, bem como a conversa que tive com alguns depois. Mas o melhor foi ver que ninguém ficou indiferente com aquilo tudo e que a história soviética não foi considerada modelar por ninguém ali. Ainda há por que ter esperança na humanidade.

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Sobre Fábio V. Barreto

Católico, aprendiz de escritor, ávido por conhecimento, e outras coisas mais.
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Uma resposta para Movie Review: The Soviet Story, de Edvins Snore

  1. Seu texto foi preciso. Assisti ao documentário e pude constatar tudo o que vc escreveu. Entendo que a divulgação do documentário para todo o brasileiro é de suma importância. Nele está condensado todo conhecimento necessário, o que vale por dezenas de livros de história, que aliás precisarão passar por uma revisão geral a partir de agora..

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