Book Review: “O Estrangeiro”, de Albert Camus

o-estrangeiroO romance O Estrangeiro foi o primeiro de Albert Camus (1913-1960), Prêmio Nobel de Literatura em 1957. Escrito no mesmo ano, é o mais popular dos livros do grande escritor franco-argelino, tanto que a banda de rock inglesa The Cure se inspirou nele para compor sua música Killing na Arab. O livro narra a desgraça de um homem chamado Meursault, seu crime e sua condenação. Para esta resenha, utilizo aqui a tradução de Valerie Rumjanek, publicada pela Editora Record, em 2004.

Funcionário de um escritório, Meursault tem uma vida banal, sem grandes acontecimentos, perspectivas e até mesmo ambições. Logo no primeiro parágrafo (lendário, aliás) pode-se perceber uma série de características suas que são vitais para a compreensão da narrativa:

“Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: ‘Sua mãe morreu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames’. Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem.”

A indiferença com que Meursault recebe a notícia da morte da própria mãe demonstra sua característica essencial: o embotamento moral. E é a análise desse fenõmeno que dá sentido à obra. Quando um homem não tem um compromisso sólido consigo mesmo de manter sua consciência moral sob firmes alicerces, ele começa a inventar toda sorte de ficções imaginativas no intuito de fazer adormecer seu senso moral. Desta forma, ele não responde pelas consequências de seus atos.

Quando seu senso moral está completamente invertido, a bondade ou maldade naturais de seus atos ou pensamentos é vista como algo totalmente sem sentido. Mecanicamente adere aos usos e costumes vigentes, mas sua aderência é precária, visto ser incapaz de distinguir a bondade da maldade dos atos e pensamentos. Mas essa tensão não pode manter-se eternamente; em determinado momento, ela irá estourar e o indivíduo moralmente depravado acabará por dar vazão à sua perversão.

Nesse ponto, interrompo a digressão teorética para ilustrá-la com o texto de Camus. Conforme mencionei, Meursault é moralmente embotado. Recebe a notícia da morte da mãe e segue para o asilo onde a mesma estava internada para tomar parte no velório de sua mãe. Ele toma todas as atitudes normais para uma pessoa nessa situação mas, como para ele tudo aquilo era desprovido de um significado mais profundo, não demonstra grande perturbação pelo ocorrido, encarando tudo como uma banalidade e até mesmo com certo enfado.

Com o mesmo distanciamento, ele observa e narra a rotina de seus vizinhos e conhecidos. Tudo se passa como se ele tratasse com seres humanos irreais, meras figuras de sua imaginação. Nada o afeta, nada o preocupa. Tudo isso lhe é alheio.

Pouco depois da morte de sua mãe, Meursault revê Marie, ex-colega de trabalho e logo passa a ter um caso com ela, indo ao cinema, à praia e preparando almoços juntos. Marie começa a amá-lo e deseja casar-se com ele. O pedido de casamento é igualmente antológico:

“À noite, Marie veio buscar-me e perguntou se eu queria casar-me com ela. Disse que tanto fazia, mas que se ela queria, poderíamos nos casar. Quis, então, saber se eu a amava. Respondi, como aliás já respondera uma vez, que isso nada queria dizer, mas que não a amava.

– Nesse caso, por que casar-se comigo? – perguntou ela.

Expliquei que isso não tinha importância alguma e que, se ela desejava, nós poderíamos nos casar. Era ela, aliás, quem o perguntava, e eu contentava-me em dizer que sim. Observou, então que o casamento era uma coisa séria.

– Não – respondi.

Ela se calou durante alguns instantes, olhando-me em silêncio. Depois, falou. Queria simplesmente saber se, partindo de outra mulher com a qual tivesse o mesmo relacionamento, eu teria aceitado a mesma proposta.

– Naturalmente – respondi.

Perguntou então a si própria se me amava, mas eu nada podia saber sobre isso. Depois de outro instante de silêncio, murmurou que eu era uma pessoa estranha, que me amava certamente por isso mesmo, mas que talvez, um dia, pelos mesmos motivos eu a decepcionaria. Como ficasse calado, nada tendo a acrescentar, tomou-me o braço, sorrindo, e declarou que queria casar-se comigo. Respondi que sim, que o faríamos assim que ela quisesse”.

Essa indiferença de Meursault para com a morte da mãe e um pedido de casamento permeia toda a narrativa do livro. Os fatos se passam como coisas às quais ele é totalmente estranho. Isso atinge o cume mais tarde quando, sem nenhum motivo sério, após um momento tenso numa praia, ele mata um árabe a tiros, sem que esse o tivesse ferido ou ameaçado. Indiferente ele permanece durante o próprio julgamento, que poderia acarretar-lhe (e de fato o fez) a pena de morte. Esse comportamento excêntrico não deixou de ser notado pela acusação, que apontou a frieza do réu como um sinal definitivo da imensa maldade do mesmo e da necessidade imperiosa de sua condenação.
Esta pretensão foi acatada pelo júri e Meursault é condenado à pena capital.

Na véspera de sua execução (não reproduzo o texto por ser deveras longo, mas recomendo sua leitura atenta, uma vez que expõe bem o absurdismo e o existencialismo camusianos), Meursault recebe a visita de um padre que tenta confortar-lhe e salvar sua alma. Meursault, que é ateu como sua mãe, não gosta disso e tenta esquivar-se dele. Diante da insistência do sacerdote, ele explode num surto algo sacrílego, algo niilista, considerando aquela morte como uma verdadeira libertação e mostrando seu total desajuste em relação ao mundo em que vivia. E aí entendemos perfeitamente o sentido do título do livro: Meursault não é estrangeiro por ser um francês na Argélia; ele é um estrangeiro em relação à humanidade.

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Sobre Fábio V. Barreto

Católico, aprendiz de escritor, ávido por conhecimento, e outras coisas mais.
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