Autoentrevista 2

1)Falemos ainda mais sobre as Humanidades. A quais você se dedica? Ainda tem o mesmo interesse que tinha na adolescência?

Como falei anteriormente, me interesso por Humanidades em geral, mas evidentemente não me dedico nem a todas e nem em mesma profundidade as que estudo.

Li bastante História no colégio e no começo da faculdade. É uma amor de juventude. Não se consegue saber onde se está, de onde se vem e nem conjeturar para onde se vai sem o conhecimento da História. Afinal tudo o que existe possui uma história, exceto o que acaba de começar, se é que o que provocou esse começo não possui uma história também. Há quem ache bobagem se interessar pelo passado, mas ele diz muito sobre a situação atual, em todos os aspectos. Croce estava certo ao dizer que “o homem é u compêndio da civilização universal”. Como não ver similaridades, identificações e inportância em conhecer o que se passou com as diversas civilizações, como a egípcia, a chinesa, a grega, a romana, a medieval ou a brasileira em seus pouco mais de 500 anos? Assim, vamos à História! Mas de um tempo para cá não pude mais estudar tanto história como eu gostaria.

A Filosofia veio depois. Percebi seu papel fundamental em unificar o saber, sendo algo como o vértice do conhecimento humanístico, do qual muito mais proviesse, como a arte, o comportamento, a política e a cultura. O fato de tudo isso ser muito influenciado por ela já mostra o valor que ela possui. Claro que de início valorizei a filosofia pela imagem usual de que “ela é importante porque ensina a pensar”. Pensar, na verdade é pré-requisito para o conhecimento e a prática da filosofia e ela tem o poder de refinar o pensamento, mas é mais do que isso.

A Teologia (se é que pode ser considerada uma “ciência humana” só me despertou maior atenção a partir de 2007, quando deixei minha pouca atenção às coisas do espírito desde já alguns anos e me voltei mais para Deus. Foi essa volta para Ele e os ataques movidos contra ateus que me empurraram para o estudo da teologia e um interesse crescente por temas religiosos. Mas acho que isso deve ser abordado melhor noutro local, noutro momento.

O Direito foi o meu curso universitário de eleição e sobre isso nem preciso dizer muito, pois já o fiz aqui.

A Sociologia e a Ciência Política vieram como irmãs da História e da Filosofia. Li mais no início de meus tempos universitários mas hoje me dedico mais apenas à Ciência Política, devido às contingências do dia-a-dia. Mas ainda me dedicarei a ambas com mais afinco.

Praticamente nada sei de Antropologia, Pedagogia e Psicologia. Ainda pretendo colmatar essas lacunas com algum estudo, especialmente nesta última.

2)Para que servem as ditas ciências humanas?

Essa pergunta tem um tom utilitarista que é como que inevitável nos dias atuais, em que se imagina que tudo deve “servir”, no sentido de ter uma utilidade prática imediata para a economia privada ou a administração pública. Nesse sentido, as humanidades, com a notável excepção do Direito, tem pouco a oferecer, ao menos no curto prazo.

Mas essa não é a questão. As ciências humanas servem para conhecer as coisas humanas e também conhecer o homem. Elas estudam o homem e suas ações no transcorrer do tempo, o homem em sociedade, o homem e as normas criadas por ele para conviver com seus semelhantes, a mente humana, etc. Alguém, em sã consciência pode dizer que isso não é importante, que é supérfluo? Que ser racional pode realmente ser assim considerado se se desinteressa de conhecer a si mesmo e não usa de sua inteligência para outra coisa que não para conhecimentos de ordem tecnológica que às vezes esvaziam de sentido sua vida e acabam se voltando contra o próprio homem?

3)Que acha do ensino de Humanas no Brasil? Pode dizer algo sobre o mesmo ensino noutros países?

Não me acho uma autoridade no assunto para emitir uma opinião mais detalhada e que esgote o problema, mas até onde consigo ver falta muito para ser realmente bom. De uma forma geral, é preciso um envolvimento maior com as humanidades, algo que vá alem do trabalho acadêmico rotineiro. Mais do que lecionar e escrever sobre, é preciso que os educadores da área estejam firmemente comprometidos com essas ciências e isso nem sempre acontece. Precisamos de autênticos filósofos, juristas, cientistas políticos, historiadores, etc, o que nem sempre acontece, pois com muita frequência vê-se apenas professores de filosofia, direito, ciência política ou história. Claro que é preciso superar certos paradigmas, superar a quase hegemonia do marxismo e seus derivados nas humanidades (já chegou a tal ponto isso que existe o estereótipo de que quem estuda humanas é comunista), criar uma verdadeira pluralidade, valorizar o autêntico confronto de ideias e posicionamentos, já que, muitas vezes, quando tal ocorre a reação mais comum é o boicote, a hostilização da divergência Claro que isso passa pela superação do marxismo e seus afins como influência quase hegemônica nos estudos humanísticos no país, mas é algo maior do que apenas isso.

Não sei dizer muito sobre o estudo de Humanidades noutros países, mas parece-me, ao menos na Europa e EUA, bem superior ao que se faz por aqui, embora padeça também de alguns problemas, como certo patrulhamento ideológico. Mas não parece ser (ao menos para uma opinião não tão informada quanto a minha) grave nesses lugares como o é aqui.

4)Pode listar alguns livros que considere marcantes aí?

Posso, é claro! Só não tomem essa lista como um guia de estudos proposto por um profissional.

Em Direito: Lições Preliminares de Direito, Filosofia do Direito, Teoria Tridimensional do Direito, todos os três de Miguel Reale (aliás, ele merece muito mais atenção do que essas três leituras ou mesmo a que se costuma lhe dar na academia); Filosofia do Direito, de Michel Villey; Filosofia do Direito e do Estado, de L. Cabral de Moncada (2 vols.); Historia de la Filosofía del Derecho y del Estado, de Antonio Truyol y Serra (3 vols.); Introdução Histórica ao Direito, de John Gilissen; A Luta pelo Direito, de R. von Jhering; Dos Delitos e Das Penas, de Cesare Beccaria; Direito Constitucional e Teoria da Constituição, de J. J. Gomes Canotilho; Direito Constitucional, de Alexandre de Moraes; Direito Internacional, de Jónatas Machado; Instituciones de Derecho Internacional Público, de Manuel Díez de Velasco; Direito Fiscal, de José Casalta Nabais; Curso de Direito Tributário, de Hugo de Brito Machado; Como Elaborar uma Constituição para uma Nação ou uma República que Está Despertando Para a Liberdade, de Bernard Siegan; e Por uma Constituição Democrático-Liberal, de Virgílio de Jesus Miranda de Carvalho. Acho que são bons livros que abarcam o que mais me interessa em Direito, Mas é claro que não é exatamente uma “bibliografia obrigatória ou essencial”, no sentido de dar o status questionae do Direito.

Em Filosofia: Todos os livros do Olavo de Carvalho; Os Analectos, de Confúcio; Política e Ética, de Aristóteles; Apologia de Sócrates e Fedro, de Platão; Meditações, de Marco Aurélio; História da Filosofia, de G. Reale e D. Antisieri (3 vols.); todos os livros do Eric Voegelin; Como Vencer um Debate Sem Precisar Ter Razão e Sobre a Filosofia Universitária, de A. Schopenhauer; Cristianismo: A Religião do Homem e Pitágoras e o Tema do Número, de Mário Ferreira dos Santos; e Ditos e Feitos Memoráveis de Sócrates, de Xenofonte.

Em Religião: a Bíblia; o Catecismo da Igreja Católica; o Código de Direito Canônico; Imitação de Cristo, de Thomas Kempis; Caminho, Sulco e Forja, de São Josemaría Escrivá; os Relatos de Um Peregrino Russo; Ortodoxia, de G. K. Chesterton; Não Temais, Não Vos Preocupeis… Deus é Vosso Pai!, de D. Rafael Llhano Cifuentes, e Opus Dei, de John Allen Jr.

Em História: as quatro “Eras” de E. Hobsbawn (que, apesar do forte viés marxista, não deixa de ser uma forte de estudos importantes e que muito influencia quem se interessa por história contemporânea); O Livro Negro do Comunismo, de S. Courtois (indispensável para desmistificar a ilusão comunista); A Infelicidade do Século, de Alain Besançon; Os Anos Vermelhos, de Hua Linshan (incrível crônica da Revolução Cultural chinesa); O Diário de Anne Frank (imperdível depoimento sobre o horror nazista); História do Brasil, de Boris Fausto; História de Portugal, de José Hermano Saraiva (gosto de livros desse formato, que abarcam toda a história de um país, dos primórdios à atualidade); entre outros que agora não me lembro, além de diversos documentários.

Não vou citar livros de ciência política ou sociologia, pois acho que por hoje basta de listas.

5)Só para terminar por hoje: e a Literatura? Como se deu seu interesse por ela?

Desde a infância eu gosto de ficções, como aliás, acho que quase todo mundo gostava de histórias fictícias quando pequeno. Com o crescimento e o amadurecimento, a literatura acabou por vir naturalmente, especialmente os clássicos pois, se eu queria ser alguém culto e inteligente, deveria ler o que gente assim lia, e elas liam e leem os clássicos. Não demorou muito para eu gostar cada vez mais da coisa, ampliando o número de autores que me interessavam e também os gêneros que eu apreciava. Mas eu não quero aprofundar muito isso por hoje. Fica para a próxima entrevista!

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Sobre Fábio V. Barreto

Católico, aprendiz de escritor, ávido por conhecimento, e outras coisas mais.
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