Meditação sobre a Morte

Já viste, numa tarde triste de outono, caírem as folhas mortas? Assim caem todos
os dias as almas na eternidade. Um dia, a folha caída serás tu. (São Josemaría Escrivá, Caminho, ponto 736)

 

A morte é a velha companheira indesejada do homem, não há segredo algum nisso. Desde os tempos mais remotos ela nos aflige em diversos momentos da vida, levando pessoas que admiramos, que nos são próximas e, por fim, a nós mesmos. Seu braço inexorável a todos alcança, sem qualquer distinção.

Tenho convivido de perto com a morte nos últimos tempos. Em janeiro do ano passado perdi uma tia muito querida, vítima de problemas no fígado. Ela já tinha a saúde frágil há um tempo, mas o quadro se agravou até este ponto. No mesmo ano um tio de meu pai, a quem ele era muito chegado e a quem tínhamos muito carinho faleceu. Idade avançada, mal de Alzheimer, essas coisas. Sentimos muito, mas já era algo esperado, dado o grave estado de sua saúde. Na semana passada, outro tio de meu pai também se foi, após uma dura luta na UTI.

Há pouco mais de 10 anos, minha mãe tinha câncer. Foram feitas viagens de tratamento, cuidados aqui em Fortaleza mesmo, remédios cada vez mais pesados, internações, etc. Ela melhorava e piorava, numa montanha-russa angustiante. Por volta do dia  5 ou 6 de abril de 2004 recebi a notícia de que ela ia sair do hospital onde estava internada, pois estava melhorando bastante. Que alívio… temporário! No sábado, dia 8, ela voltou a passar mal pela manhã e foi internada às pressas no hospital aqui perto de casa. Ela piorara muito! Foi um dia de longa agonia e longa luta. Só saímos de lá, eu, meu pai e minha irmã, tarde da noite. Eles foram para casa e eu fui dormir na casa da minha avó, que fica na mesma rua.

No dia seguinte, logo cedo, fui com minha avó ao hospital e soube por minha tia, aos gritos, que a terrível luta de minha mãe contra o câncer havia chegado ao fim, às 06:00, com a entrega da alma dela ao Criador. A dor que nos assaltou e o rumo dos acontecimentos eu não consigo descrever cá, até porque muita coisa se passou sem que eu saiba bem como.

Sim, hoje fazem 9 anos do falecimento dela, a maior desraça que já se abateu em minha vida. Tive de aprender na carne o que é perder uma mãe e conviver com isso pelo resto da vida, coisa que não imaginava como seria. A duras penas aprendi e confesso que nesses, tempos, tive momentos felizes. Mas isso nunca deixou de doer em minha alma. Nunca deixei de sentir a falta dela, especialmente nos momentos mais difíceis, pois sei que neles ela aqui teria me dado uma ajuda providencial, seja agindo ou aconselhando.

Sabemos que um da vamos morrer mas vivemos como se a morte não existisse. Postergamos realizações, melhoras, pedidos de perdão, atos de desagravo, e conversão. Sempre consideramos que temos bastante tempo ainda, mas não sabemos se estaremos vivos amanhã ou mesmo daqui a 1 hora. “O dia de amanhã é incerto e quem sabe se te será concedido?” diz Tomás de Kempis no capítulo 23 do livro primeiro de seu admirável Imitação de Cristo. A verdade é que somos insensatos que se creem senhores do tempo quando na verdade estamos mais para escravos dele.

A morte é também uma oportunidade de reavaliar nossas prioridades, de separar o importante e essencial do fútil e supérfluo. Quantas coisas “importantes” nessa hora perdem todo o brilho e todo o significado! Quantas “pequenezes” aí se mostram verdadeiros tesouros, pelos quais a vida vale a pena e nos lembram nossa parecença com o nosso Divino Criador!

Para o cristão sincero, cheio de fé e vida interior, não há o que temer na morte, já que ela é o meio pelo qual nosso Pai Deus se utiliza para levar seus filhos para a eternidade. Se somos bons filhos (isto é, vivemos nEle, em intima comunhão com Ele), por que temer reencontrar nosso Pai amorosíssimo? A única coisa realmente a temer é o pecado, que nos afasta do nosso Pai Deus.

Muito mais pode ser dito sobre isso mas eu não o tenho como fazer no momento. Queria terminar esse texto sobre a morte com esta oração, chamada “Aceitação da morte”:

“Meu Deus e meu Pai, Senhor da Vida e da morte, que, para justo castigo das nossas culpas, com um decreto imutável determinastes que todos os homens haviam de morrer, olhai para mim, aqui prostrado diante de Vós. Detesto de todo coração as minhas culpas passadas, pelas quais mereci mil vezes a morte, que aceito agora com o fim de expiá-las e para obedecer à vossa amável vontade. Gostosamente morrerei, Senhor, no momento, no lugar e do modo que Vós quiserdes, e aproveitarei até esses instante os dias que me restem de vida para lutar contra os meus defeitos e aumentar o meu amor por Vós, para quebrar os laços que atam meu coração às criaturas e preparar a minha alma para comparecer à vossa presença; e desde agora me abandono sem reservas nos braços da vossa paternal Providência.”

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Sobre Fábio V. Barreto

Católico, aprendiz de escritor, ávido por conhecimento, e outras coisas mais.
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