Eu e a Literatura

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Recorrendo às minhas recordações, acho que comecei a desenvolver mais seriamente minhas ambições intelectuais já no período medeia entre a pré-adolescência e a adolescência, quando ficava cada vez mais claro que o que eu tinha era mais do que um simples gosto juvenil por leituras, mas sim uma certa inquietação por descobrir, por conhecer cada vez mais coisas, as mais variadas possíveis, embora já estivesse imbuído de um certo censo de hierarquia de valores e de importância.

Já decidido pelas Humanidades em geral (especialmente pela História, a mais presente e acessível a um estudante colegial), não posso negar o gigantesco impacto da Literatura em minha orientação e meus interesses, impacto esse que começou a se impor por volta do segundo semestre de 1998 e que durou até princípios do novo milênio, quando as ciências humanas se impuseram mais decididamente e a literatura passou a estar um lugar mais discreto em minhas ocupações intelectuais, embora a inda bastante presente e com uma forte tendência a crescer.

Já em 1997, na atormentada época da pré-adolescência (depois trato melhor disso) eu comecei a me interessar por uma literatura mais séria, ao contrário da literatura infanto-juvenil que eu, por razões óbvias, costumava ler até então. Foi uma época curiosa: eu lia Machado de Assis ou literatura russa, mas também João Carlos Marinho ou os livros da Série Vagalume da Editora Ática passados pela escola (ele tem uma série ótima sobre garotos que bancam de detetives), além dum livro sobre uma turma de um prédio em São Paulo que vive os conflitos da adolescência e amadurece com o passar dos anos. Nunca neguei a importância dessas leituras e nem creio que alguém em são juízo o faça, pois é assim que começa a se formar um bom leitor, e não mandando jovens de 14 ou 15 anos ler A Comédia Humana completa. Mas eu já queria algo mais, buscava algo maior do que aquilo. Daí comecei a me interessar pelos clássicos da literatura, bem como li algo, muito pouco embora, dos escritores contemporâneos consagrados.

O ponto decisivo disso tudo começou no atribulado ano de 1999, quando começei a ter aulas de Literatura. Eu tinha 16 anos e era a primeira vez que teria essa matéria. Que maravilha aquela!!! Minhas leituras pouco ordenadas agora adquiriram uma certa ordem, passaram a ser melhor localizadas e “mapeadas”, ao estudar escolas, influências e estilos de época.

Aquilo era mesmo uma delícia! O esquema de estudo era o seguinte: apresentava-se a escola que iria ser estudada, o contexto histórico e intelectual que a fez surgir, as linhas mestras da mesma, e depois entrávamos nos autores da escola correspondente, primeiro em Portugal, depois no Brasil. Depois de ter descoberto Fernando Pessoa no ano anterior, essa imersão na literatura portuguesa foi como que a entrada triunfal no palácio do saber, o ingresso num mundo superior, mais amplo do que o que eu estava habituado. Ao mesmo tempo que descobria todo um mundo novo, eu também “restaurava” algo, uma vez que a cultura portuguesa foi a grande mãe da cultura brasileira. Era também a restauração cultural de Portugal, legado à obscuridade naquela época, bem como, em boa medida, ainda hoje em dia.

Estranhei,porém, o fato de começar a estudar a literatura a partir do Romantismo, sem conhecer os estilos e períodos anteriores, coisa que, para variar, tive de fazer por conta própria.

Conheci neste ano Garret, Camilo Castelo Branco, Sousândrade, Visconde de Taunay, Antero de Quental, Eça de Queiroz, Olavo Bilac, Cruz e Sousa, Alphonsus de Guimaraens, Eugênio de Castro, António Nobre, Camilo Pessanha e outros. Machado de Assis, Gonçalves Dias, Aluísio Azevedo e mais alguns eu já conhecia antes, mas aí o fiz de forma mais sistemática. Lateralmente, devido ao meu interesse, conheci também Mário de Sá-Carneiro, Charles Baudelaire e Goethe, embora não profundamente, especialmente este último. Assim foi, pois em 1999 estudei do Romantismo ao Pré-Modernismo.

Nesse ano escrevi muitos poemas. Começei a fazê-lo já em 1998, de forma um tanto canhestra, é verdade, mas aí a coisa tomou corpo, ficou mais séria. Também aí me decidi a ser escritor um dia, mesmo um fundador de uma escola literária. Esta última última ambição, porém, já foi abandonada há tempos. Foi que nesse ano, durante as férias de julho, que li A Divina Comédia de Dante.

Sobre minha ambição de fundar uma escola literária, digo que acho que ela brotou de algo mais do que o ímpeto juvenil de criar algo, de “mudar o mundo”: eu estava convencido de que uma boa literatura tinha de se identificar, de alguma forma, em algum grau, com uma corrente literária. E isso ocupou bastante a minha mente: eu sentia vivo interesse nas polêmicas entre românticos e realistas, entre realistas e simbolistas, manifestos literarios, etc. Uma literatura completamente independente, inclassificável em uma escola preexistente ou que declaradamente criasse uma própria escola me parecia muito esquisita, como que uma aberração. Pensava então em criar algo misto, uma estética que sintetizasse várias correntes e pensamentos, um verdadeiro amálgama. Hoje em dia isso não mais me motiva e tenho bem menos interesse em classificar segundo correntes, já que adoto como critério a relevância e os temas tratados pelo livro ou o autor.

No ano seguinte minha paixão pela literatura só se intensificou. Estudei as vanguardas europeias do começo do século XX, o Modernismo, meu querido Fernando Pessoa, o modernismo brasileiro em suas duas fases e em prosa e verso, o Pós-modernismo, o concretismo, etc. Lembro-me do destaque aí dado para a Semana de 22 e da grande admiração que tive por um tempo pelo movimento, embora tivesse pouco apreço pela maioria das obras dos primeiros modernistas. Me afinei mais com a Geração de 30 e um pouco com Manuel Bandeira. Cheguei mesmo a vê-los, por um tempo, quase como que heróis. Mas depois de lê-los melhor e de ler também análises críticas ao movimento minha visão mudou e, basicamente, ainda não se alterou desde então.

Foi nessa época também que começei a “romper o eixo Portugal-Brasil” que vinha dominando as minhas leituras há já quase dois anos e li um pouco mais de poesia francesa e inglesa, bem como procurei por autores de outros quadrantes culturais. Foi nessa época que esbocei um plano ousado de ler, a cada um ou dois anos, um grupo de obras importantes de duas literaturas (brasileira e italiana ou brasileira e francesa) até, com o decorrer do tempo, percorrer por quase toda a literatura mundial. Esse plano nunca foi aplicado mas foi resgatado há um tempo, com modificações da ideia original. Ele agora dá menos destaque a literatura brasileira, que tinha espaço excessivo. Diga-se de passagem que, devido às condições atuais, ele está sendo muito fracamente observado, mas vou seguir com ele. No ano que vem e em 2014, por exemplo, a prioridade vai para as literaturas brasileira e espanhola.

Já nessa época eu começei a ser cada vez mais atraído pelas humanidades. Cada vez mais me interessava a história, a filosofia, a política, a diplomacia. Mesmo reconhecendo o valor da literatura, vez por outra eu a via como menor entre estes, quanse como uma “perda de tempo”, como pensam certos broncos. Isso agravou-se quando cheguei à universidade e eu nunca mais pde me dedicar à literatura como fazia na época.

Ironicamente, o último impulso para uma “restauração da literatura” em minha vida intelectual, e que promete fazer isso mesmo, veio do estudo da filosofia. Na primeira aula do Curso Online de Filosofia, Olavo de Carvalho recomenda que o estudo dedicado e sério da filosofia deve ser precedido de um adestramento do imaginário, e que a melhor forma de conseguir isso é lendo muita literatura. Assim resgatei meu antigo plano de leituras ao qual aludi há dois parágrafos e, apesar das arduidades, tenho lido literatura e pretendo fazê-lo ainda mais.

No momento, leio “Os Maias”, de Eça. Estou na página 49 de 716. Ainda tem muito pela frente. Hoje, depois dos deveres, tem Eça! Viva a literatura!

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Sobre Fábio V. Barreto

Católico, aprendiz de escritor, ávido por conhecimento, e outras coisas mais.
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