Dicas para ser um Intelectual de Boteco

Não é raro toparmos com o conhecido “intelectual de bar”. Creio que qualquer um já conheceu essa figura. Pensando nela, elaborei essa lista que, embora um pouco desordenada, é bastante realista:
1-Seja um apreciador devoto de bares, cafés e restaurantes, ao ponto de vê-los não só como sítios para refeições e conversas leves, mas como também ideais para a formação intelectual;
2-Leia, mas não se preocupe muito com hierarquias de leituras. Dê preferência à jornais, jornalecos e orelhas de livros;
3-Pelo mesmo motivo, cultive um horror à ideia de método científico, de status questionis. Isso é chato, coisa de intelectual de verdade. Lembre-se: você planeja ser um intelectual de boteco;
4-Quando falar, dê preferência ao tom categórico, à generalização do que à proporcionalidade e à realidade;
5-Evite demonstrar ter dúvida. Um pensador de boteco não deve ter dúvidas;
6-Se for pego numa situação difícil, desconverse, dizendo que “isso não interessa”, “isso é embromação”, “isso é muito bonito na teoria, mas na prática é diferente”, etc;
7-“Não li e não gostei” é algo reprovável para os outros. Mas para você, não;
8-Lembre-se sempre de manter um tom de superioridade, seja em relação oas interlocutores, seja em relação ao tema tratado;
9-Simplifique sempre. Não importa a complexidade do assunto. Sempre
tente simplificá-lo, reduzi-lo a um esquema simplista, de preferência de acordo
com suas crenças, ideias e mesmo (por quê não?) preconceitos;
10- Jogue para a platéia, isto é, seus interlocutores;
11- Escamoteie, tão logo seu interlocutor esteja lhe refutando de modo fulminante;
12- Faça perguntas em desordem. Aquele que se lhe opuser e que cair nesse jogo não poderá lhe acompanhar e assim você terá “vencido” a disputa;
13- Não vacile em tomar a prova de uma tese como se fosse a própria tese;
14- Raciocine circularmente. A conclusão deve vir em primeiro lugar, e todas as premissas que desenvolveres à partir dela devem sempre terminar nela mesma;
15- Em casos extremos, rir do oponente é bom. Mas só em casos extremos;
16- Use o argumento da autoridade, mesmo que, e principalmente se, ele não ajude em nada a esclarecer o assunto debatido;
17- Se bem trabalhadas, analogias fora do contexto podem ser
bastante úteis;
18- O argumento da ignorância é um dos recursos essenciais ao
intelectual de botequim. Portanto, não tema em dizer “nunca ouvi falar nisso”,
“isso é ficção” e coisas semelhantes, mas sempre deixando a impressão de que
você é superior a tudo isso, tão superior que desconhece o que é dito justamente
por se tratam de ninharias;
19- Procure passar a imagem de que você é “O Cara”. Melhor do que você não existe, ou dificilmente existiu, existe ou existirá. Pode também citar alguns melhores, poucos mas que sejam aprovados por você;
20- Ponha o barzinho e tudo o que lhe é relacionado em equidade com a ciência e a alta cultura.

(Publicado originalmente em Nova Mensagem, em 08 de Outubro de 2007)

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Sobre Fábio V. Barreto

Católico, aprendiz de escritor, ávido por conhecimento, e outras coisas mais.
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