Book Review: “O Senhor Ventura”, de Miguel Torga

Terminei hoje de reler O Senhor Ventura, excelente novela do escritor português Miguel Torga. E por gostar tanto do livro é que quero fazer aqui uma
resenha sobre o mesmo.

Miguel Torga usa frequentemente em suas obras as imagens de um Portugal rural, onde a faina diária dos homens para a subsistência está presente e compõe um dos elementos essenciais da narrativa. Os diversos elementos agrários – a semente, a terra, a colheita, o pão, a água, o trabalho- são, em sua prosa, imagens radiantes de vida que, escritos num estilo lírico e contido (Torga é um mestre em resumir numa frase o que outros escritores
levariam várias delas para dizer o que querem) fazem o que talvez seja uma das
obras mais interessantes da literatura portuguesa do século XX.

E tais características estão presentes também em O Senhor Ventura, apesar de aqui a
acção se passar, quase toda ela, fora de Portugal. O livro traz-nos a biografia
de um alentejano de Penedono, desde cedo acostumado a dura luta pela
sobrevivência nos campos do Sr. Gaudêncio, guardando o gado. Aos 20 anos de
idade, é mandado pela família à Lisboa, para o serviço militar.

Na tropa, o moço forte e entroncado do Alentejo conquista o respeito de seus pares, e
acaba por ser destacado para servir na colónia portuguesa de Macau. Lá conhece
Júlia, a filha do secretário do Governador, com quem começa a ter um caso. O pai
da moça não gosta da situação e vai reclamar ao comandante do regimento para que
impeça o soldado de encontrar Júlia furtuvamente à noite. Mas de nada adianta,
já que Ventura consegue fugir do quartel para se encontrar com a moça, mas
apenas para dizer “não sou forma para eu pé”. E a deixa.

É o início de uma vida de aventuras pela China adentro, onde ganha a vida, ora com um amigo cozinheiro (que acaba por morrer de uma forte febre), ora prestando serviços nem
sempre lícitos, como operário de fábrica; condutor de uma caravana para fazer
uma entrega de caminhões no Deserto de Gobi, região deveras árida e perigosa, no
meio de um conflito armado; biscates; máquinas automáticas de jogo; e, por fim,
produção e tráfico de heroína. Este último negócio foi de todos o que lhe correu
pior: logo foi apanhado pela polícia, preso mas, por ser estrangeiro e devido à
intervenção do cônsul português, escapou à prisão e a uma possível condenação à
morte na China. É, no entanto, obrigado a repatriar-se. E deste desfecho deixa
para trás seus bens, seu filho e pequeno e Tatiana, uma russa com quem se casara
num ímpeto irrefectido e com quem vivia um relacionamento bastante
conturbado.

De volta ao seu Alentejo natal, o senhor Ventura luta para arrecadar uma fortuna considerável numa herdade que arrenda de seu antigo patrão, Gaudêncio. São 5 anos de uma peleja duríssima contra um solo e um clima hostis aos seus projectos, pugna essa entrecortada pelo desejo de rever o filho e a esposas que pela terra de Confúcio ficaram. As lembranças amargas de Tatiana vão-se, com o tempo, desvanecendo, embora a russa muito pouco lhe escreva e, quando o faz, faz de forma lacónica.

Ao cabo dos 5 anos, o senhor Ventura prepara-se para voltar à China quando recebe uma carta dizendo que Sergio, seu filho, está em Lisboa com o senhor Francisco Gomes um antigo amanuense da legação portuguesa naquele país que voltava a sua terra para reformar-se e que era conhecido do senhor Ventura havia anos.

Ao buscar o filho na casa do antigo conhecido, o senhor Ventura fica a saber que depois de ter partido para Portugal, Tatiana envolveu-se com outros homens e vivia de gastar a fortuna que Ventura a muito custo acumulou. Agora seu paradeiro era ignorado por seus
antigos conhecidos mas, quando a guerra na China se mostrava mais iminente,
buscou a legação para saber como enviar logo seu filho a Portugal.

Com isto, o senhor Ventura deixa o pequeno Sergio no Colégio de Santo António, na
capital portuguesa, para que fosse instruído na língua de Camões e por lá
habitasse enquanto o pai percorria a China atrás da esposa adúltera, motivado
por um misto de ódio, amor e desejo de ver e ouvir por si próprio o que ela
tinha a dizer sobre o que se passara.

Foi em vão sua nova epopéia chinesa. Serviu-lhe apenas para passar por dificuldades financeiras, fome, cansaço e decepção. Para piorar, caíra hospitalizado devido a um cancro que tinha há tempos. Só aí pôde ver Tatiana, já no leito hospitalar. E assim
morreu.

Enquanto isso, em Lisboa, Sergio teve de abandonar o Colégio de
Santo António por falta de pagamento. Gaudêncio apieda-se do menino e o leva
para ser pastor de suas ovelhas em sua herdade no Alentejo. E aí, claramente,
inicia-se um novo ciclo quando o antigo se fecha: o filho inicia-se na antiga profissão do pai, quando este falece no Celeste Império.

A figura do protagonista é o triunfo da vontade, da sede de aventuras de um português
deslocado da época em que nasceu, mas que estava em grande sintonia com o
Portugal dos Descobrimentos, aquele que era inquieto e ansioso por descobrir
novas terras e povos, que agora parecia capaz apenas de olhar-se a si mesmo e
tristemente resignar-se com a pequenez a que se reduzira (e que, nos dias que
correm, não parece aspirar a ser mais do que uma boa província da União Europeia
no possível futuro Estados Unidos da Europa). É uma história de aventura,
picardia, luta, paixão, mas também de ternura e humanidade.

(Publicado originalmente em 3 de Agosto de 2010)

 

 

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Sobre Fábio V. Barreto

Católico, aprendiz de escritor, ávido por conhecimento, e outras coisas mais.
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